Pintar borboletas com esmaltes coloridos [Elyandria Silva]

Posted on 13/08/2015

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Elyandria Silva*

O ser humano se supera em suas vertentes mais malignas. Matar, atacar, ofender, preconceito, não são comportamentos contemporâneos, e sim trazem rastros de um passado distante, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. O passado está voltando, num perigo disfarçado.

Vive-se na busca pelo fim do preconceito, das atrocidades, da injustiça. Vive-se, enquanto cada um tenta fazer a sua parte, da melhor forma possível, aceitando tudo aquilo que é diferente: cores de pele, formas de amar, tipos de famílias não tradicionais, formas de pensar diferentes. A luta pela abolição do preconceito tornou-se um clichê. A promessa de liberdade é sempre bela. A de vivermos num mundo livre é amarrada por uma fita de veludo negro. A mesma fita que passeia por velhas cicatrizes de peles negras e brilhantes. Essas peles escuras já sofreram muito, aqui, lá, em todos os lugares. Em alguns cantos do mundo pessoas que nascem com a pele escura ainda vivem na boca do canhão, bradando por direitos já conquistados, no papel, mas dificilmente usufruídos. Exclamações luminosas, de susto, remetem a um tempo de escravidão, quando até o vento da noite assustava quem não podia se defender.

Barack Obama é o Messias de Ébano que mudou a história e lavou a alma resignada de milhões de negros americanos, dos vivos, dos mortos ladeados por molduras douradas, dos que são apenas um nome na voz de pais esperançosos. Na multidão que aplaudia a vitória, em 2008, lembro-me, assistindo pela televisão, a multidão de sorrisos que luziam pelo privilégio da conquista.

O filme O Mordomo da Casa Branca toca uma campainha de medo, que se funde com as sombras chocantes do ódio e do preconceito sem fundamento. Cecil foi um mordomo negro que trabalhou por mais de vinte anos na Casa Branca, tendo como colegas de trabalho outros negros. Casado, pai de dois filhos, meninos, dedicou a vida ao trabalho para sustentar a família. Conviveu com vários presidentes americanos, teve acesso à intimidade desses homens e ouviu conversas e decisões que fizeram e/ou mudaram a história americana. Existia um mundo a parte para os negros americanos, que sofreram verdadeiros horrores causados pelo ódio dos brancos. Em lanchonetes, restaurantes os lugares para sentar eram separados, cadeiras e mesas para os brancos, cadeiras e mesas para os negros. A mesma separação em escolas, transporte e qualquer acesso para terem uma vida digna e livre. Os negros não eram livres, viviam discriminados, com medo, humilhados e lançados à própria sorte de absurdos criados pelos brancos, que se achavam ridiculamente superiores. O presidente John F. Kennedy, que tentou, entre outras aspirações, melhorar a realidade dos negros e instituir leis que garantissem os direitos aos mesmos, morreu assassinado.

Jovens sonhadores e todos aqueles que formaram grupos de combate para mudar a realidade eram severamente castigados. Presos, torturados, apanhavam, por tentar desafiar a lei como, por exemplo, sentar nos bancos destinados aos brancos para comer um lanche. Criaram o Ônibus da Liberdade, onde brancos bons e negros viajavam juntos, como num sonho de conquista, até o Ku Klux Klan, entidade racista que tentava a qualquer custo impedir a integração social negra, descobrir o ônibus, atacá-lo e tocar fogo matando e ferindo a todos.

É um filme doído, assustador, triste. Aconteceu, foi real. Serpentes de um ódio doentio se proliferavam, rastejando, por todos os cantos, por um simples motivo: a cor. Pessoas que nasceram com a pele de cor escura, pele negra, sofreram violências indescritíveis, que me faz ter vergonha de ser da raça humana.

Sobrepondo-se à dor há sempre a esperança, nem que ela viva à beira de um precipício. Porque Deus coloca várias cores de peles no mundo para nos ensinar uma linguagem doce e mágica, tão doce quanto um cavalo-marinho, tão mágica quanto pintar borboletas com esmaltes coloridos.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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