A lição dos buldogues [Ana Laura Nahas]

Posted on 12/08/2015

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Ana Laura Nahas*

Buldogues franceses não precisam de grandes espaços para serem felizes. Vivem em lugares pequenos, próximos e leais aos donos daquele afeto todo. Buldogues franceses são afetuosos por natureza. Segundo consta, o pior dos castigos para eles é a solidão.

Apesar da aparência marrenta, buldogues franceses são engraçados, suaves e bem-humorados. Preferem as horas mais frescas do dia ou então a calma do sofá. Segundo consta, são cães de pensamento solto: fazem as coisas do modo como bem entendem, daquele modo levinho, vai ver, de que são feitas as tortas que escapam da receita, determinados encontros e as tardes de domingo.

Buldogues franceses são em geral silenciosos como um dogon, quase preguiçosos, preferem o repouso ao excesso de movimento, gostam de servir e experimentar novos sabores. Segundo consta, precisam de contato constante com humanos.

Buldogues brincam sempre que possível, como devia ser, em certos momentos, a postura minha, sua, de todos nós: rir apesar das ausências, dançar a dança dos dias felizes das perdas, levar ao pé literalmente da letra a lição gingada segundo a qual quando você para de brincar de mexer o coração, ao invés de bater, padece.

Buldogues são livres como a cronista de óculos grossos e coração apertado escreveu que era [ou queria ser] – livre para rir ou chorar, lembrar ou esquecer, sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã, livre para desenhar o rosto do amor dela apesar de não saber desenhar e porque já não corria o risco de vê-lo chegar de repente e se botar cinicamente a rir do seu sentimento e do desenho dela.

Segundo consta, a cara achatada dos buldogues franceses exige respiração pausada e um pouco de sombra, distância da água e toques sutis. Buldogues franceses adoram um cafuné. Apesar da leveza, da liberdade e da brincadeira, buldogues franceses envelhecem rápido: aos 12, 13 anos, estão próximos do fim da linha, mas mantêm a alegria e a liberdade dos primeiros tempos.

Com Bilbo, o buldogue francês com quem aprendi o que agora escrevo, foi assim. Um dia, dois veterinários diagnosticaram que ele tinha pouco tempo de vida. Disseram que seu coração era do tamanho da caixa toráxica e que seus rins não funcionavam bem. Receitaram remédios, ração especial, manhã, tarde e noite de privações e limites. Ele detestou, emagreceu, ficou tão mal-humorado e deprimido que seus donos decidiram deixá-lo em paz para que fosse feliz, mesmo que por pouco tempo.

Livre das pílulas de velho e da comida de doente, Bilbo voltou a viver como um buldogue francês típico, adepto do riso e da suavidade.

Foi a lição, mesmo que involuntária, instintiva, animal: saudar mais a vida que a morte, mais o riso que a doença, mais a dança que as restrições, como devemos também fazer, sempre que possível, respirar, sorrir, conversar, respeitar, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, aquilo tudo. Em lugares pequenos, com os afetos por perto, com bom humor e pensamento solto, a calma do sofá, a leveza das tardes de domingo, a lição gingada sobre o movimento, sabores novos e as tortas que escapam da receita.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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