Colônia de férias [Domingos Pellegrini]

Posted on 10/08/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

– Pietro, você tem certeza que que quer  viajar daí até aqui? São doze horas de vôo!

– Eu sei, vô, eu quero, sim!

– Mas você sabe que vai vir sem o papai e a mamãe, uma moça do avião cuidando de você até te entregar pra nós aqui, né?

– Eu sei que vou sozinho, vô, mas eu já tenho seis anos!

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Pietro veio dos Estados Unidos, em São Paulo se juntou ao Lucca – e Caetano esperava em Londrina; deu abraços  de gente-grande nos primos menores, afinal ele já tem sete anos.

O sofá voltou a ser o herói de sempre que os netos vem para a chácara. Como é pisado e sovado nosso sofá, e continua inteiraço!

E nosso café no terraço como é tão gostoso com bigodes de iugurte e chuva de farelos de bolacha!

Eles brincam sem parar desde que saem da cama até que caem na cama à noite, quando vovó Dalva lê histórias. De manhã, pergunto quem lembra quem dormiu primeiro, e eles se entreolham e riem, Caetano sopra:

– A vovó dormiu primeiro, vô.

E Dalva confirma: – É, acho que, de tão cansada de ver tanta brincadeira, apaguei no virar a página…

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Brinquedo campeão é o Cipó do Tarzã! É só uma corda dupla com nó para os pés, pendurada num galho do flamboiã, sobre uma escada em V  de onde eles se lançam à aventura que dura poucos segundos mas rende tanto riso! Enquanto isso, o balanço caprichado que o vô fez, lá na mangueira, continua abandonado… Pietro explica:

– O Cipó do Tarzã é mais massa, vô!

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E vamos ao shopping. No final da tarde de cinema-parquinho-sorvete, depois de brincarem até com os seguranças, perguntamos se gostaram de rever o shopping.

– Foi bom…

 – …mas não tão bom.

– Antes tinha mais criança.

Como explicar a eles a crise da economia?

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Duas semanas ou duzentos bons momentos depois:

– Bem, meninos, vai acabar nossa colônia de férias.

 – Que é colônia, vô?

Depois que conto tudo que sei da palavra “colônia”, pergunto se entenderam, e Lucca resume:

– Colônia é a gente se juntar até acabar o tempo das férias.

E foram para seus aviões, seus pais, seu outro país, seus mundos, seu futuro. À noite, acho um aviãozinho debaixo do travesseiro, e então o peito incha, os olhos enchem, e a última cena da Colônia de Férias é uma tela borrada do The End de um filme que já passou e nunca vai passar.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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