Fósseis desfossilizam [Luís Giffoni]

Posted on 08/08/2015

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Luís Giffoni*

Todos deveríamos ter um fóssil em casa, em local de destaque, bem visível, em cima da geladeira por exemplo. Não um fóssil recente, como os preguiças-gigantes que viveram em Minas Gerais há poucos milhares de anos, porém um antigo, um dinossauro. Sei que é pesado e difícil de arranjar, mas valeria a pena. Se não o conseguirmos, vamos nos contentar com um imaginário. Suponhamos um Tyrannosaurusrex, ainda filhotinho, ao lado do pinguim de louça. Par perfeito.

Quando o T. Rex nasceu, os primatas não existiam nem na imaginação, ou melhor, nem imaginação havia. As espécies contavam apenas com a astúcia, as pernas ou as garras para sobreviver. Se algum bicho caísse de quatro e implorasse ajuda aos céus, tadinho. Outro bicho, mais chegado a instinto, logo o devoraria. Eis a primeira ajuda que o fóssil nos pode dar. Ele vem de uma época em que os deuses não existiam, porque, com a necessidade divina de reconhecimento, adoração e sacrifício, estão intimamente ligados à nossa espécie, em simbiose perfeita. Eles nos ajudam, nós os sustentamos. Como são eternos, infere-se que a humanidade também será. Sem o ser humano, quem os adoraria? A serpente?

Nesse ponto, o fóssil pode provocar confusão. Veja só. Todas as espécies, mais cedo ou mais tarde, acabam extintas. Seríamos a exceção? Alguém, com fundamento, argumentaria que os tubarões são anteriores ao tiranossauro, portanto sobrevivem há uma eternidade. Não seria, então, o caso de consultarmos os deuses deles? Têm eficiência comprovada.

O fóssil também nos ajuda em questões mais à terra, questões do dia a dia. Quem nunca sentiu uma dosezinha excessiva de orgulho ou, deprimido, achou que o mundo caiu de vez? Para os acessos mais brandos, não recorrentes, a fossilterapia funciona. Atenção, curandeiros de plantão: a técnica é tão simples que não justifica escrever livros ou ministrar cursos sobre ela, portanto não dá dinheiro. Consiste no seguinte: durante a crise aguda de desânimo ou inchaço de ego, contemple o fóssil por alguns segundos e constate que o animal já teve as mesmas necessidades nossas, do ar à comida à luta pela vida – e veja o que virou: pedra. Pense que ele conseguiu um destino melhor que o da humanidade inteira. Milhões de anos após sua morte, ainda marca a presença no mundo, ainda vemos seu corpo, ainda nos transmite informação. Quem nos garante que, no futuro distante, restarão traços humanos sobre a Terra? Portanto, nesse aspecto, qualquer fóssil jurássico pode ser mais bem sucedido que o Homo sapiens.

Depois da contemplação desfossilizante, faça-se uma pergunta singela: não seria melhor a gente viver sem muita firula, curtir os dias do jeito que vêm, sem ódios e rancores, arrogância ou depressão? Afinal, a vida não dá duas safras nem deixa sequelas.

Muita gente despreza os fósseis, porque são pura pedra, a realidade nua e dura. Como todos carecemos de bengalas fora de nós mesmos, apelamos para a fantasia. O mundo não fica muito melhor com óvnis, superpoderes, milagres, livre comércio? A ficção é vital. Sem ela não estaríamos aqui, os escritores. No entanto, meditar sobre um fóssil de vez em quando faz um bem…

Para dizer a verdade, até fóssil vivo serve, com vantagem extra: é abundante e sai de graça o ano inteiro, com paletó e gravata, na primeira página de revista e jornal. Coleciono o retrato de vários em cima da geladeira. A maioria mora em Brasília.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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