Depois dessa, ninguém me segura [Rubem Penz]

Posted on 07/08/2015

6



Rubem Penz*

– Bom dia, bem-vindo, em que posso ser útil?

– Eu gostaria de fazer um seguro, por favor. Um seguro laboral.

– Claro. Temos uma excelente modalidade para invalidez temporária ou permanente. Ela pode garantir lucros cessantes caso o senhor quebre uma perna, ou a mão, ou precise permanecer em um pós-operatório…

– Não, não é bem assim. Está mais para aquilo da atriz assegurar suas pernas, entende?

– Perfeito, perfeito. E qual parte do corpo seria para o senhor?

– Nenhuma, óbvio. É mais complicado. Eu queria fazer seguro de ideias.

– Hum, sei. Mas, será que este não é o caso de registro, ou de patente, ao invés de seguro?

– Nãnãnão. Quero assegurar ideias futuras. Eu me sustento com criação, sabe…

– Olha só, parece uma boa ideia! E quais ideias colocaríamos na apólice?

– Como vou saber? Acho que minhas melhores ideias ainda nem existem, sacou? Que tal fazermos um balanço médio de quantas ideias tenho por ano para projetar? Sabe como é, para o caso de Alzheimer, AVC, morte…

– Lógico. E quantas ideias o senhor tem, mais ou menos, por ano?

– Deixa ver, umas quatro por dia útil, mesmo que venham algumas delas em final de semana, as melhores! Vezes tal, noves fora, hã, dá uma aproximação de mil ideias por ano. É, no mínimo.

– Certo, certo. Mil… E quanto vale cada ideia?

– Nossa! Uma boa ideia pode valer milhões! Uma vez fiz uma campanha…

– Perdão, arrisca uma média, por favor.

– Ah, sei. Vamos ver, uns quatro, não, cinco mil.

– Ok, dá então cinco milhões por ano… Invalidez temporária por, digamos, seis meses… Invalidez permanente por, empresta o RG para ver sua idade… Hum, fácil trinta anos… Morte, tem herdeiros? Mais um instante… Assim, aqui está o prêmio.

– Está louco? Eu não tenho dinheiro para pagar um seguro tão caro!

– Podemos mexer na tabela. Deixe suas ideias valendo, sei lá, quinhentos, fica bem mais em conta. Espera aí, calculando… Olha!

– Diacho, salgado para mim.

– Ó quanto fica por cinquentinha a ideia, quem sabe?

– Ainda não deu.

– Tá! Aplicando lampejos de cinquenta centavos, opa, gente, sai muito em conta!

– Hummm…

– É, doutor, acho mesmo que se as suas ideias forem todas iguais a essa de seguro de ideias, elas não valem é nada. Quem sabe vai um segurozinho para perna quebrada, hein? Pós-operatório? Tendinite, resfriado?

__________

*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized