Praia real [Daniel Cariello]

Posted on 06/08/2015

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Daniel Cariello*

As grandes palmeiras imperiais da rua Paissandu foram plantadas no século XIX para formar um caminho monumental e protegido do sol entre o Palácio Guanabara, residência da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, e a praia do Flamengo, onde a família real gostava de passear.

Mesmo que eu não consiga visualizar Vossa Alteza Imperial trajando maiô, e muito menos seu marido francês de sunga, posso imaginar como teria sido uma dessas idas ao mar, em um Rio de Janeiro que ainda começava a descobrir sua vocação praieira.

– Conde! Conde!
– D’Eu?
– D’ocê mesmo. Prepara nossas tralhas, banhar-nos-emos.
– Pour quoi? O que nos fizeram?
– Quem?
– Os emos.
– Conde, d’Eu ruim na tua cabeça? Além de você não saber usar mesóclises, o que é imperdoável no século XIX, os emos e seus filmes de vampiros ainda não foram inventados. Eu disse que nós vamos tomar banho!
– Mas já tomei mês passado, na nossa última voyage à Paris.
– De mar, Conde, banho de mar!
– Ah, d’accord! Mas… pra quê?
– Ué, pra torrar a pele sob o sol, ficar morena, gatinha, desejada, tirar selfie, bombar no Insta, essas coisas que vão ser tendências nos próximos séculos.
– Ma chérie quer lançar moda. Isso dá até polka! “Olha que coisa mais fina, veja que beleza, aquela menina é a minha princesa, la belle Isabel vai pra praia torrar”. Curtiu? Já tem até nome: Princesa do Catete. Acho que funciona, mesmo que estejamos no Flamengo.
– Deixa essas tentativas poéticas pra quem entende. Volte para o que você sabe fazer.
– Bonne idée! Mas o que é, mesmo, além de ser Conde?
– Hummm, não sei, também. Enquanto não descobrimos, vá arrumando as coisas pro nosso passeio. Coloca toalhas, protetor solar e os baldes, pazinhas e coroas dos principezinhos no sacolão. Pega também umas cadeiras reais e uns guarda-chuvas grandes, que ainda não criaram os guarda-sóis. E um baú com bebidas geladas e guloseimas, pois só daqui uns 100 anos vai aparecer o primeiro vendedor de mate e biscoito Globo.
– Não é bixcoito Grobo?
– Essa questão nunca terá uma resposta definitiva. Agora, trata de cuidar do que pedi.
– Mas, ma princesse, é muita coisa pra carregar. Não podemos obrigar um escravo a cuidar disso?
– Alô…ô! Francamente, Conde! Euzinha pensando em acabar com a escravidão e você com essas ideias de jerico. Vamos, as férias estão chegando e já rola o boato que a minha irmã, a Leopoldina, tá morenaça e quer ser eleita a Princesa do Verão 1880.
– Ma princesse, não se preocupe, você é imbattable. E será sempre a princesa do lar, a rainha do meu coração, a imperadora das minhas vontades, a majestade do…
– Deu, Conde, deu. Pega as tralhas e vamos nessa, o sol tá bombando!

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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