Adeus, pretinho [Domingos Pellegrini]

Posted on 27/07/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

Meu Pretinho, antes de tudo espero que ninguém me processe por  te chamar assim: não é racismo, ao contrário, te acho muito bonito preto desse jeito, é com carinho que te chamo Pretinho.

Pois bem, meu bem, adeus. Vou te aposentar. Já tanto te abandonei, você pensará, agora mais isto, aposentar. Sim, ao menos para mim você está aposentado.

Sim, este velho caboclo, que te comprou pensando em fotografar isso e aquilo, do lixo na rua à flor do cacto, este velho caboclo que te comprou pensando em se filmar falando poemas para o mundo, este velho caboclo simplesmente não tem paciência para conviver com você.

Então fique com Deus, ou melhor, com quem herdar você. Sim, estou te doando, querido, para não te magoar dizendo que estou te dando. Doar é mais nobre, né?

Sei que você vai poder dizer para o resto do mundo que nós acabamos desta forma vergonhosa, mas é isso aí.

Ouviu que falei “o resto do mundo”? Porque quando estou com você nunca estamos sós! Ou melhor, esqueço de você, até que você toca, aí me lembro de você ao mesmo tempo que você me joga gente no colo, me joga informação demais, me convida para comprar coisas de que não preciso.

Gostei de ti, querido, enquanto durou, como diria o Vi.

Agora, adeus. Algum filho vai te usar, ainda não sei qual. Assim, de certa forma você continuará comigo uma relação bio-info-lógica, digamos.

Um smartphone aposentado de um velho caboclo, passando a servir a um jovem experto, eis uma redenção. Ou ressurreição. Ou recelularização: se a palavra ainda não existe, inventamos!

A página no Facebook continuará tocada pela Dalva, e acessarei apenas pelo computador. Se um dia precisar de GPS, quem dirige em viagem é mesmo a Dalva, que tem seu celular e pronto.

Portanto, adeus, Pretinho. Fique com um poeminho:

Não deu certo, meu querido

mas não se sinta culpado

Vai cada um pro seu lado

mas você sai renascido

 

Poderá dizer que é um

fenômeno evolutivo:

conviveu com uma múmia

e ainda continua vivo!

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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