Arnaldo Amado [Daniel Cariello]

Posted on 23/07/2015

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Daniel Cariello*

Eles se conheceram na praia. Ele pediu emprestado o protetor solar e ela disse que só estava autorizada a emprestar se o creme fosse aplicado pela passadora oficial. Ele perguntou quem era e ela disse “eu mesma, prazer, Vavá”.

Ele disse que não se chamava Vavá e ela respondeu que sabia, aliás, não sabia, mas imaginava, pois Vavá era como ela se chamava. Ele falou seu nome, Sérgio, e comentou que aquilo era engraçado, pois Vavá era o apelido de um ex-atacante da seleção brasileira. Ela só conhecia o Neymar e encerrou o papo sobre futebol perguntando se ele queria ou não o protetor com direito a aplicação grátis. Ele queria.

Ela era do tipo metódica: fazia pequenas bolinhas de creme pelas costas e ia espalhando aos poucos, de cima para baixo. Ele reclamou da perigosa proximidade com “essa parte aí embaixo”, que era como se referiu ao próprio bumbum. Ela nem ligou e abaixou um pouquinho o calção dele, o suficiente para poder passar o produto na fronteira entre a pele bronzeada e a branca.

Ele começou a assobiar uma canção (ele preferia dizer “assobiar” a “assoviar”, então eu apenas respeito sua vontade). Ela emendou uma melodia parecida. Ele não se aguentou.

– Você conhece o Arnaldo Baptista?
– Amodoro! (Ela dizia amodoro). Tenho tudo. Inclusive aquele da capa no quarto, violão na mão, um véu voando.
– Eu gosto do dele no piano, foto em preto e branco.

Ele, ainda deitado, ficou muito contente de descobrir, assim, lado a lado na praia, alguém que compartilhava seu gosto musical, apesar de não se lembrar desse disco do quarto. Ela não escondia o sorriso enquanto aplicava o creme, com ainda mais doçura, mas repassava sua coleção na cabeça e não via a capa com o piano. Talvez precisassem esticar até a casa dele, ou a dela, pensaram juntos. E propuseram ao mesmo tempo.

– E se a gente…

Eles nem terminaram a frase e já se levantaram, arrumando cada um seu sacolão de praia. Ele guardou o livro do Murakami. Ela colocou a revista Caras na bolsa. “Não esquece o creme”, ele disse. “Pode ser útil”, ela respondeu. “Eu moro no Flamengo”, ele falou. “E eu na Tijuca”, ela completou. Decidiram ir à casa dele, mais perto.

Nem bem chegaram, ele foi vasculhar a coleção de vinis, antes até de propor uma bebida. Ou um beijo na boca. O que viesse primeiro. Pegou o álbum e mostrou à Vavá, que arrumava o cabelo no reflexo do vidro que protegia o pôster do Keith Haring.

– Quiéisso?
– Arnaldo Baptista, Singing Alone
– Não era Amado?
– Oi?
– Amado Batista, Vitamina e Cura. Era disso que eu estava falando.

Ele guardou o disco e perguntou se ela queria beber alguma coisa. Ela pediu suco. Ele só tinha cerveja. Ela se lembrou que precisava ir, tinha uma festa de aniversário. Ele se recordou que tinha combinado de ver o jogo do Flamengo com o Bill. Despediram-se com um beijo no rosto. Ele ficou na janela, observando-a se distanciar. Ela virou pra trás e viu. Ele fez um aceno tímido. Ela lembrou-se que havia esquecido o protetor solar e pensou em voltar, mas, quando olhou de novo, ele não estava mais lá.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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