Seleção natural [Marco Antonio Martire]

Posted on 22/07/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire* 

Eu achava que essa atitude era uma lenda urbana. Nunca tinha presenciado. Nunca nessas condições, todos na mesma mesa? Os quatro rapazes praticaram algo para mim inusitado, mas que é hoje absolutamente normal. Chegaram no buteco, escolheram uma mesa, sentaram, pediram seus chopes e imediatamente sacaram seus espertos celulares, começaram a teclar, a compartilhar, a curtir. Os quatro não, corrijo, um deles não tirou o smartphone do bolso, ficou bebericando o chope, um ato de resistência tão inútil quanto necessário. Graças a ele, percebo que a noite tem salvação, juntemos um de uma mesa ali, outra de uma mesa acolá, mais uns dois da mesma espécie e teremos a receita de uma mesa animada, falaremos do que quisermos, xingaremos o governo, malharemos a oposição, reprovaremos o amigo descarado, esticaremos os olhos para aquela mulher incrível. Essa alegria toda ao imenso ar livre, sem ligar para quem estiver por perto!

Bom, né? Mas o meu assunto aqui é a tal atitude. Durou diante de mim uns impensáveis vinte minutos. Posso até imaginar que alguém irá considerar o tempo irrisório e perdoará aqueles jovens canalhas. Posso até imaginar que alguém os chame de campeões. Vai ver são mesmo, serão quem puderem ser, preciso ser compreensivo, quando chegar a hora saberão como trocar uma ideia, saberão quando se queixar de um relacionamento sério, saberão para quem reclamar de um chefe rancoroso e como se dirigir ao garçom quando o pedido não estiver de acordo.

Neste ponto da conversa, eu preciso confessar: meus primeiros semestres na faculdade de comunicação foram desastrosos. Tenho grande parcela de culpa, mas aqui quero fazer a minha defesa: passei os dois últimos anos do ensino médio estudando feito um camelo, assimilando os assuntos por osmose a partir do quadro negro enquanto os professores despejavam matéria na sala de aula. Alcancei a faculdade com alegria e os professores de lá vieram então com a novidade: exigiram de mim uma posição crítica. Crítica, professor? O que é isso?

  Nem sei se aprendi direito, por isso entendo esses rapazes junto aos smartphones. É pedir muito o mundo atento ao mundo real, as bocas afiadas nos assuntos importantes, não sei se meus professores da faculdade eram bons o bastante, porque a internet apenas engatinhava. Mas aposto que falhariam em manter concentrada minha turma fora de nossa coleção de vídeos, curtidas e comentários.

Se os rapazes nem reparam na cor do chope, a não ser que queiram tirar uma foto para impressionar a galera virtual. Erguem as caldeiretas lindas de chope e registram como a vida é fantástica, bebem um gole estiloso e pousam as caldeiretas feito gênios na mesa.

Ai ai, que peso! Eu não sei se devo me adaptar tanto. Darwin ao meu alcance já é passado, preciso de uma teoria da seleção natural que leve em conta a velocidade que o povo exibe ao teclar minúsculas letras na tela touchscreen, uma teoria da seleção natural que diga quando devo me render ao novo supersistema operacional, uma que explique como impedir que irritantes janelas de propaganda tomem tanto tempo de clique. De clique.

Enquanto isso, este mundo complexo em que estou metido assiste a esses jovens, que sentam em grupo em uma mesa de buteco linkados totalmente nos seus smartphones. Eu aceito a curiosidade, sou mais um que costuma beber seu chopinho quieto, largado na mesmíssima cadeira. Ai de mim se trocam de lugar aquela cadeira! Curto observar dali o meu mundo, óbvio que a galera do smartphone também deve observar o deles.

A seleção natural que se dane.

 

Gente, no dia 30 de julho, quinta-feira, às 19hs, será lançada aqui no Rio de Janeiro a coletânea de contos CLUBE DA LEITURA III, pela Editora Oito e meio. Este cronista contribuiu com um conto. A festa será na Travessa dos Tamoios 32 C, Flamengo, pertinho do metrô. Quem quiser comparecer será muito bem-vindo!    

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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