Ichbinbeidir [Mariana Ianelli]

Posted on 18/07/2015

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Mariana Ianelli*

O homem-biblioteca George Steiner, em um de seus muitos elogios à leitura, analisa o “Filósofo lendo”, de Chardin. Houve quem visse o próprio Steiner na figura do quadro. Steiner, por sua vez, diz que se deu conta dessa familiaridade só mais tarde.

O homem-biblioteca pode discorrer infinitamente sobre a ampulheta, a caveira, a pena, os instrumentos de alquimia, os medalhões de bronze e a roupa engalanada do leitor de Chardin no que cada um desses elementos representa dos mistérios e prazeres da leitura. Mais ainda, pode o homem-biblioteca discorrer sobre como, do século XVIII ao século XXI, o sentido de cada um desses elementos foi desbotando.

Sim, o livro como objeto transfigurou-se. Sim, hoje o leitor recebe o que lê com muito menos consentimento do que desconfiança. Foi-se a temporalidade das ampulhetas e dos grandes fólios. Os homens-bibliotecas agora são quase tão raros quanto os tigres de Sumatra. Sim, sim, sim para tudo isso, e claro que aí desponta a maçã gorda do pessimismo para os homens-bibliotecas: Steiner vê o cenário silencioso pintado por Chardin ir se confinando a um contexto de especialistas, e vê os perigos disso.

Mas, antes do sonho de reapetrechar os leitores de amanhã com os rudimentos do saber que hão de torná-los leitores de novo, leitores de verdade, que seria o sonho de Steiner, por que não também pôr alguma fé, pouca que seja, nesse dado de afeto, nessa predileção, antes de tudo inconsciente, de Steiner por Chardin, entre inúmeros outros quadros famosos que abordam o tema? Como não confiar que, não importa quanto gire o mundo e quão desmemoriado ele se torne, sempre haverá quem compareça a um pessoalíssimo encontro a dois?

Que seja sem chapéu, sem casaco, sem tinta para escrever à margem das páginas, e, ainda assim, dialogando, correspondendo, sem ampulheta nem medalhão nem espetacular repertório, mas com outros ainda inclassificáveis saberes e cerimônias, pode ser que alguém chegue a um poema de Rilke, por exemplo, e escute ali: Ichbinbeidir. Assim, num amálgama só, num verso só sussurrado ao pé do ouvido: Estoucontigo. Pode ser que disso brote uma amizade que não se exibe, da mesma natureza do verso de Rilke, silenciosa como um rapto. E então, por que não?, pode ser que este leitor capaz de uma leitura bem feita, capaz de uma leitura honesta, esteja bem aí, sem ser visto, íntimo mais do que próximo.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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