Barrigas [Madô Martins]

Posted on 17/07/2015

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Madô Martins*

Andava cansada de tanta mesmice. A mesma malhação de Dilma onde quer que estivesse, as mesmas queixas contra a crise, o futebol e doenças, as mesmas piadas, a mesma praia, os mesmos rostos. Até que um dia o destino me levou a um lugar repleto de gestantes. Dezenas de barrigas de vários tamanhos, cada qual abrigando pelo menos uma vida. A esperança do novo desfilando frente aos olhos. Sementes que florescerão meninas e meninos para um mundo em que já serei coadjuvante.

Lembrei que há muito não escrevo poesia. Há muito a vida não me extenuava como agora, inspirando palavras melancólicas. Passeava pela prosa com relativa ousadia, tratando de cotidianices, no geral, pouco sombrias. Nos versos, o avesso vem à tona, trazendo a borra de fantasmas até então trancafiados nos porões de antigas naus. Ali ficam as tristezas, prontas a morder a isca da escrita. Mas me nego a lançar o anzol.

Fixo-me nos semblantes das futuras mães, tábuas que me salvam do naufrágio. Uma acabou de conhecer seu rebento através do ultrassom, e deixa o recinto comovida. Outra exercita a paciência, esperando voltar para a sala de exame a fim de visualizar o rosto do bebê, que na primeira sessão o escondeu com o braço. E uma terceira, aguarda a vez ansiosa, porque finalmente descobrirá se terá um filho ou uma filha.

Há muitos sorrisos, naquela sala. Muitas histórias que se trocam, muita curiosidade pelas barrigas alheias, vários irmãos e irmãs ainda pequenos acompanhando tudo, alguns maridos um tanto estupefatos com a paternidade iminente, médicos delicados. Não há lugar para a tristeza, no ambiente. No máximo, talvez, uma pitada de lamento por parte das futuras avós, por suas barrigas nunca mais poderem ficar esféricas como aquelas…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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