Faxina [Ana Laura Nahas]

Posted on 15/07/2015

2



Ana Laura Nahas*

Tem dias em que estantes, gavetas, armários e ideias exigem arrumação imediata, e nem toda a rinite do mundo parece capaz de deter aquela determinação que ninguém explica de remexer em discos, livros, projetos e saudades, de tirar móveis e meter outros no lugar, arrumar retratos, trocar Os Sofrimentos do Jovem Werther pelo Guia da Mulher Superior, o Pequeno Tratado das Grandes Virtudes pelas desgraças de Pouco Amor não é Amor, a estabilidade pelo risco, a saudade pelo movimento, o silêncio por uma canção de mudança.

O dia voa como costumam voar os melhores momentos, e cada pedaço revisitado guarda uma memória, uma lembrança, uma história. Às vezes, as lições são preciosas: viver de fato as mudanças e as contradições, por mais que elas doam; saborear o fim de determinados ciclos e o início de outros; aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa, porque num dia o que era amor se torna só indiferença, e depois mais nada, e o vazio se transforma em outro amor, e depois ninguém sabe.

Em uma foto, um e-mail ou um livro, primeiro vemos distância, depois proximidade, e gente que parecia estranha vira amigo, e gente que parecia amiga vira quase estranha. Em um chaveiro ou um velho texto guardado, primeiro vemos antipatia, depois paixão, primeiro vício, depois indiferença, e o disco que não saía da cabeça cria poeira na prateleira e a canção que até outro dia fazia chorar não diz nada.

À moda das melhores terapias, uma faxina, com meio litro de Pinho Sol e dose extra de desapego para jogar as coisas fora, sem sentimentalismos em excesso nem grandes provisões para o futuro, desafia, diverte, ensina, ajuda a passar o tempo e, em alguns casos, estende o prazo de validade da própria vida, às vezes sufocada por um amontoado de melancolias guardadas e de sonhos desfeitos. Uma faxina é como uma viagem: mesmo as mais curtas ou menos surpreendentes nos transformam, de algum modo, um pouco que seja.

__________

* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

Anúncios
Posted in: Uncategorized