Meu Querido Cinema [Cyro de Mattos]

Posted on 14/07/2015

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Cyro de Mattos*

O cinema ficava numa das ruas perto do centro da cidade. Ocupava um prédio grande. Realizava à tarde sessões de matinê para a meninada e a juventude. As sessões realizadas à noite eram chamadas de “soirée”, que os meninos pronunciavam “soarê”. Era proibida  a entrada  de menores de 18 anos ou até de 21 na sessão noturna  quando a fita tinha cenas pesadas. Cena pesada para a censura era quando o mocinho beijava a mocinha na boca com muita volúpia.

O filme sobre Jesus Cristo na  Sexta-Feira da Paixão era o que mais me deixava  triste. Saía do cinema cabisbaixo, inconformado com a traição de Judas, que entregou Jesus aos soldados para que fosse crucificado. Os desenhos de Walt Disney encantavam gente pequena e grande. O cinema partia-se em gargalhadas com as cenas engraçadas de Oscarito, Grande Otelo, Cantiflas, o genial Carlitos e a dupla O Gordo e o Magro. Filme de bangue-bangue só prestava se o xerife fosse  John Wayne, Roy Rogers  ou  Randolph Scot. Meninos trocavam revistas em quadrinhos e figurinhas para o álbum dos ídolos no passeio do cinema. Tarzan, Fantasma, Capitão Marvel, Batman, Príncipe Submarino, Tocha Humana, Flash Gordon, Mandrake e Super-Homem renderam-me uma porção de sonhos bonitos.

Lance que empolgava qualquer menino vidrado em fita de bangue-bangue era quando a cena mostrava o mocinho no seu cavalo ligeiro perseguindo os bandidos que acabavam de roubar o banco. Acuados, os bandidos procuravam salvar a pele e se escondiam por trás das pedras no morro. Acontecia troca de tiros, os bandidos iam caindo, um a um, atingidos por cada balaço. Já em outra cena eletrizante, o mocinho defendia-se com golpes ágeis, e, ao mesmo tempo,  desferia  socos potentes no chefe dos bandidos. O vilão ia sempre para o xadrez na matinê do domingo. O mundo era só canção. O bem vencia o mal. A vida era doçura pura no arco do triunfo. O mocinho beijava a mocinha no final, arrancando da plateia aquela ovação sem igual.

A fita mais obscena que passou no dia em que o cinema ficou mais cheio não foi a mais obscena. O juiz, o promotor, o escrivão  e o delegado iam assistir “Só para  Homens”. O juiz havia prometido ao Cristo pendurado na parede do gabinete que ia lavrar o flagrante e prender o dono do cinema, caso ficasse provado que a fita atentava contra os bons costumes e ultrajava o pudor público.

Houve apenas uma exibição da fita. A sessão começou à meia-noite. Ouvi dizer no outro dia pelo homem que consertava bicicleta que nunca o cinema coubera tantos homens importantes. Alguns entravam no cinema  desconfiados, outros de fisionomia fechada. Os chefes de família procuraram disfarçar a saída para a rua àquela  hora da noite. Seu Onofre, o dono da padaria, disse à esposa que ia para uma reunião extraordinária do partido político. Seu Abdias, o diretor do colégio,  jurou que fora convocado  para uma reunião na loja maçônica. Era  o preço que pagava por integrar  uma instituição  que exigia de seus filiados o cumprimento das normas estatutárias a qualquer hora. E seu Toledo, um velho comerciante, conhecido pela austeridade dos princípios morais,  informou  à dedicada e fiel esposa que ia fazer  no domingo  o balanço mensal da loja, com um movimento de vendas  surpreendente em fevereiro. Pediu à esposa que não esperasse por ele cedo, podia varar a madrugada até que contabilizasse todo o movimento do caixa no mês.

Duda, o chefe da turma de minha rua, me disse que “Só Para Homens” não passava de um documentário científico sobre a evolução sexual. Mostrava a relação sexual de homem e mulher na cama, numa cena rápida e meio encoberta, como também  o ciclo da  gestação e a hora do parto. Era só isso e nada mais. Uma droga de fita. O dono do cinema devia devolver o dinheiro caro do ingresso, bradou o gerente do banco do estado, que fez um grande esforço para ver a fita. Duda contou-me que ele saiu da cama de mansinho, aproveitando a esposa ferrada no sono, e, minutos depois, atravessou a rua em silêncio, protegido numa capa de chuva, cachecol no pescoço e guarda-chuva aberto. Usava óculos escuros, boné axadrezado, uma lanterna acesa que clareava as pedras no escuro da noite, querendo passar por um detetive.

Não sei como ele soube dessas informações sobre a fita. Mas o que é que menino esperto não consegue saber ou descobrir neste mundo, principalmente quando se trata de coisa proibida  que se passa entre os adultos?

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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