Jumé [Domingos Pellegrini]

Posted on 13/07/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

A fusão da facção mais radical do Aislamismo de Raiz com o Movimento Jumé resultou no seguinte.

Os aislamitas faziam reféns, os jumés ficavam amigos deles.

Os aislamitas queriam suicidas para alcançar a eternidade, os jumés queriam viver a vida.

Os aislamitas não podiam ver mulher, e os jumés, mas por outros motivos, também não podiam ver mulher.

Os aislamitas rezavam dias inteiros em oração, os jumés adoravam cochilar rezando, ou rezavam adorando o cochilo.

Como os jumés sempre chegavam atrasados, os aislamitas prolongavam e demoravam as cerimônias.

Aliás, os aislamitas queriam cerimônias, os jumés queriam só sonhar.

Um dia, ou uma noite, ninguém lembra bem, um aislamita ousou perguntar:

 – Daonde vem esse nome Jumé? Nosso nome – Aisla – é homenagem a nosso Deus, à nossa santa irmandade para renascimento do mundo! Mas Jumé, o que é?

O mais veterano dos jumés explicou:

– Jumé é uma mistura de jumento com fé. Pois é, teve um tempo em que o jumento foi nosso irmão, nosso trator, nosso guia e nosso sustento, então você quer  o que? Que te conte em trinta palavras o que é para nós o jumento?!

Os aislamitas, que só tinham se fundido com os jumés porque queriam ver seu movimento crescer, viram que perigava era perderem força e até se desmoralizarem. Então fizeram uma grande reunião, em que os chefes falaram e discutiram, à vista de todos que, porém, nada podiam ouvir, sentados bem longe.

Os jumés, ao contrário, aproveitaram a noite livre para se reunirem em redor de fogueira, discutindo se era melhor assar batatas-doces ou espigas de milho.

Metade assaram isso, metade aquilo, e estavam de barriga cheia olhando as estrelas e ouvindo canções quando um representante dos aislamitas, pomposamente vestido, chegou, pediu silêncio e leu que a fusão estava desfeita. Os jumés fizessem o que quisessem da vida, os aislamitas iam continuar seu movimento sem desvios nem concessões.

Que bom, disseram os jumés, a gente também vai continuar como sempre, vivendo a vida e, aliás, só fundimos com vocês porque ficamos com dó, tão sofridos atoamente eram vocês.

O aislamita ia se retirando quando resolveu perguntar o que todos os aislamitas estavam se perguntando:

– Se vocês adoram o jumento, porque não erguem jumentas estátuas?

Ah, riram os jumés, e o veterano explicou:

– Nós não adoramos o jumento, só convivemos com eles. E nem somos um movimento nem uma religião, né, somos só jumés.

 Os aislamitas até hoje não entendem como é que alguém pode ser só jumé e, mesmo assim, parecerem felizes como só os jumés.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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