Antes de eu ir pra Nauru [Alexandre Brandão]

Posted on 12/07/2015

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

Ao Belmiro, amigo que costuma transver o mundo.

No trem, um pregador diz que já havia sido traficante e assassino. Escrevendo certo por linhas tortas, Deus e Cristo o salvaram. Até aí uma conversa conhecida, mas ele acrescenta que fugiu do tráfico, da favela, foi viver longe de onde nasceu e, ao voltar, foi pego e levado para o alto do morro. Quando iam despachá-lo para o nunca mais, resolveu dizer que ninguém morre duas vezes, que eles já haviam matado seu corpo antes e, naquele momento, não conseguiriam matar seu espírito. O fato de ele estar no trem, expondo sua vida, era a prova cabal de um milagre. Imagino que, na viagem entre a Central e o subúrbio carioca, naquele dia e noutros, o pregador conquiste muitos devotos. Como estamos todos à deriva, uma salvação a módicos —  quase nunca tão módicos — dízimos nos cai bem.

Bel, que me contou tal história, emenda mais outra, essa similar a uma vivida por mim. Ele andava pelas imediações da praça Tiradentes quando um sujeito, assim do nada, lhe perguntou se ele já havia saído de lá. De lá? É tudo obscuro, mas a intimidade da abordagem fez Belmiro pensar que a memória o estava traindo, que estava diante de alguém com quem já convivera. Ao fim e ao cabo, o “parceiro” deu um perfume a meu amigo, disse que era para a esposa e que não lhe cobraria um centavo. Depois pediu uma ajuda. O perfume — apenas uma essência adquirida numa das lojas da Saara, a Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega — saiu por um preço muito acima da sua qualidade. Na minha história, em vez de perguntar se eu havia saído de lá, o trambiqueiro perguntou se eu ainda ensinava lá. Como dei aulas alguns anos na Zona Norte, numa faculdade frequentada por muitos alunos que viviam da informalidade e outros, segundo corria a boca pequena, da ilegalidade, o perfumista bem poderia ter sido meu aluno. Na lábia pura, vinte contos meus, vinte do Bel, grande malandro.

Em Homenagem ao Malandro, imortalizado por Moreira da Silva, Chico Buarque dizia que o malandro havia acabado, substituído pelo engravatado com emprego, retrato na coluna social e tralha e tal. Vê-se, no perfumista da praça Tiradentes, um resquício desse tipo em extinção. Num mundo em que se tira o tênis do outro com revólver ou faca — não raro usados para dar cabo da vida do dono do tênis a troco de nada —, afanar vinte pilas do inocente na conversa mole é uma dádiva. E, melhor ainda, sem que a polícia perceba, o que seria um problema e tanto, pois sabemos como é a mira dessa polícia. Não só a mira, mas também o dedo podre, que não perde a chance de transformar uma pequena contravenção num grande negócio. (Nem preciso dizer para quem é bom o negócio.)

Na minha utopia pessoal, iriam por terra todas as proibições. Tudo que não fosse roubar, violentar, sequestrar, discriminar e matar (mais alguma atrocidade que me escape agora) seria permitido, e a justiça cuidaria de condenar os malfeitores, baseada no fato de que sempre há os que vivem de passar a perna nos outros. Os médicos atuariam com orgulho para interromper uma gravidez não desejada, o mesmo orgulho com que atuam em tudo que é da medicina. Em contrapartida, a igreja trataria de convencer seus fiéis de que, independente de a lei permitir, eles deveriam agir sob o preceito da religião. Cada um no seu quadrado. Os pais, quando seus filhos saíssem à noite, teriam a tranquilidade de saber que os excessos dos meninos não lhes custariam a vida numa guerra entre gangues de traficantes ou entre polícia e traficantes. Por que estou falando tudo isso? Uma especulação firmada na minha crença de que muitas proibições acabam por substituir o malandro folclórico por um bandido de fato perigoso. Um delírio a partir da nostalgia de dias menos violentos, o que deve coincidir com o tempo em que Don Don jogava no Andaraí (música de Nei Lopes cantada com aquele jeitão de malandro das antigas do Zeca Pagodinho).

Não posso me alongar e ainda não disse o que tenho a dizer. A oferecer, na verdade. Preste atenção, é uma oportunidade única. Viajarei para Nauru, de onde importarei guano, um fosfato de cálcio composto pelo cocô de morcegos e aves — pré-históricos, segundo alguns. Pois bem, tenho um bilhete premiado da loteria federal no valor de um milhão de reais e estou sem tempo de buscar a grana. Sendo assim, vendo o bilhete — 1752, galo na cabeça — por reles cem mil. O interessado pode fazer um depósito em minha conta do Banco do Brasil e aguardar o talão, que enviarei em carta comum, com fé cândida no funcionamento de nossos correios. Pegar ou largar.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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