Cultura…. pra quê? [Luís Giffoni]

Posted on 11/07/2015

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Luís Giffoni*

Sonhei que estava no ano de 2030, caminhando pelas ruas de Hong Kong. Em todos os quarteirões, alardeadas por propaganda no rádio, televisão e em painéis luminosos, havia lojas de três cadeias mundiais de refeições rápidas: o FrangoFar™, que servia um delicioso frango com farofa, acondicionado em caixinhas de sapato assinadas pela grife Ronaldo Fraga; o Tchê™, rede mais sofisticada com o famoso churrasco gaúcho desprovido de setenta por cento das gorduras; e o Mineiro™, campeoníssimo universal de vendas, um irresistível sanduíche de linguiça com pão de queijo, acompanhado de guaraná.

Pedi este último numa lanchonete, o atendente identificou meu sotaque brasileiro, indagou-me a pronúncia correta de “mineiro”. Com muito esforço, parou de dizer “minelo”.

Sentei-me numa das mesas, decoradas com fotografias de Ouro Preto e, enquanto apreciava um chorinho no som ambiente, o freguês à esquerda confessou que aderira ao fã clube do carro Tongadamironga, o melhor do mundo depois que o equiparam com o motor Pai de Santo, recomendado até pelos grandes terreiros da Bahia, aval universal de qualidade. Após muitas loas à beleza e ao arrojo do veículo, elogiou a genialidade do brasileiro, um povo que soube aliar os prazeres da vida ao trabalho criativo, gerando uma civilização vibrante, digna de ser imitada pelos chineses. E pelo resto do mundo, completou.

No momento seguinte, em Manhattan, lia no New York Times um artigo sobre a pouca originalidade da arte norte-americana quando comparada à efervescência existente no Brasil, o polo mais inventivo do planeta. O autor também exaltava o autêntico interesse dos brasileiros pelos próprios artistas, sinal de que sua cultura ia de vento em popa, enquanto a norte-americana despencava para a periferia a que fazia jus, exaurida depois de sobreviver à custa de muita autopromoção na mídia. Por fim, vaticinou: havia um novo Renascimento em curso, dessa vez com sabor tropical. Da Vinci e Michelangelo que se cuidassem.

No Louvre, participei de uma rodada de capoeira com congado para comemorar a vitória da cachaça como bebida  patrimônio da humanidade. A nota destoante veio do mestre de cerimônias parisiense que, após depreciar o uísque escocês, procurou resgatar o orgulho nacional com elogios rasgados aos vinhos franceses, embora ressaltasse que não se tratava de bebida destilada. Para encerrar a festa, o grupo de travestis Bois de Boulogne entoou, para delírio dos europeus, a infalível Aquarela do Brasil. Aplausos de pé para tanta criatividade. Todos caíram no samba, tentando imitar nossa ginga, evidentemente sem sucesso.

Não pude voltar para casa. Os voos estavam lotados por muitos anos, graças aos turistas atraídos pela nossa cultura e pela boa fama do país. Todos queriam aproveitar nosso clima e nossa segurança, mas eu morreria antes de embarcar, sem ouvir o sabiá da palmeira. O sonho virou pesadelo.

Em desespero, acordei com o coração saindo pelos olhos. Ao lado da cama, vi um Big Mac ensebado, coberto por uma camada branca e rígida de gordura, e um copo de Coca-Cola com uma camada de água por cima, oriunda do gelo derretido. Diante do quadro, aturdido pelas fantasias loucas, o desespero aumentou, porém uma luz brilhou nos miolos. Se me haviam convencido de que Big Mac e Coca-Cola eram comida e bebida, por que duvidaria de meu sonho?

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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