La Maison des Ex-riches [Daniel Cariello]

Posted on 09/07/2015

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Daniel Cariello*

Da janela do meu apartamento, vejo dois dos velhos casarões que dominavam Laranjeiras há algumas décadas. Ambos estão agora tombados. Um deles virou um misto de churrascaria e casa de shows e oferece picanhas e apresentações de gosto duvidoso. O outro, me contou um amigo, transformou-se em um asilo para ex-milionários, que reúnem-se ali, semanalmente, para se consolarem mutuamente e lamentar os passados dias de glória. Fiquei imaginando como seria um encontro de dois desses falidos.

– Ei, Paulo! Quanto tempo!
– Paul, por favor, é Paul. Não me chame pelo meu nome de…
– De batismo?
– Não! Sim, de batismo, mas não é o que quero dizer. Esse era meu nome de…
– De pobre?
– Não diga palavras como essa! Me dão alergia. Já começo até a espirrar. Atchim!
– Quer um lenço?
– De papel? Só consigo assoar em um mouchoir Simonnot-Godard! Atchim!
– Désolé, é o que temos pra hoje. E é o último. Vou te dar metade, caso eu precise do resto. A minha situação também não está das melhores, desde meu último divórcio.
– Aquela jararaca deliciosa e 30 anos mais nova levou o que havia sobrado, né?
– É. E justamente agora, quando começava a me convencer de que a felicidade estava nas pequenas coisas. Na minha pequena casa de Paraty, meu pequeno iate em Búzios…
– Tout est parti!
– Tudo. Fiquei na miséria.
– Atchim!
– Desculpe.
– Tudo bem. Não consigo me acostumar a esse universo da pindaíba.
– Mas, afinal, o que aconteceu com seu dinheiro?
– Investi tudo no Eike.
– Ai, que furada!
– Furada mesmo, assim como a minha calça Hugo Boss, bem aqui atrás.
– Deixa eu ver… Olha, na minha opinião, trata-se de um furo de muita classe.
– Obrigado.
– De nada. Na falta de algo melhor pra fazer, estamos aqui pra preencher o vazio uns dos outros, n’est-ce pas?

Nesse momento, o orelhão da rua começa a tocar sem parar. Um dos ex-milionários se levanta para atender. É o antigo sócio de Paulo, avisando que os móveis do escritório serão leiloados para pagar as dívidas restantes.

– Ai, meus sais.
– Tá mais pobre?
– Atchim! Olha o palavreado!
– Pardon.
– Agora quebrei de vez. Preciso urgentemente de uma taça de Dom Pérignon e de um bom foie gras.
– Tô olhando aqui no armário e só sobrou uma Fanta e meio pacote de Piraquê.
– Desce.
– A Fanta é uva, d’accord?

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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