Quem cala consente? [Mariana Ianelli]

Posted on 04/07/2015

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Mariana Ianelli*

Melhoremos o provérbio que, do jeito que está, do jeito que sempre esteve, não faz jus à realidade. Quem cala nem sempre consente. Melhor assim, bem mais real. Ficam dessa maneira contemplados os que calam porque entram em choque, estancam de horror, se petrificam, e os que calam porque só sabem o que sentem, e o que sentem é que todo cuidado é pouco, uma palavra a mais, um gesto a mais, e a corda rompe. Ficam contemplados desse modo os que se calam como cala a sensitiva, como cala o porco-espinho, a flor da anêmona, o tatu-bola, e tantos mais que por instinto fecham suas portas e janelas nas chamadas situações de alto risco. E, ainda, por mais louco que seja, porque há também o caso raro (sempre o pavio da polêmica) de quem cala porque fala na língua dos crucifixos, refletindo o gesto alheio, devolvendo o rosto alheio, ecce homo, ecce femina. O homem que fuma seu último cigarro em silêncio não consente. O homem na ilha de Nusakambagan e o que medita na hora do horto não consentem. Não consentem as meninas africanas mutiladas nos rituais das tribos, não consente a iemenita de oito anos, vestida de noiva, coroada e maquiada como uma mulher de trinta. Todos eles reescrevem a velha máxima. Quem cala e não consente são milhões, em toda parte. Retifiquemos, pois, o provérbio. Quem cala nem sempre consente. Calar é por fora, consentir é por dentro.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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