Rio, 19 graus [Daniel Cariello]

Posted on 02/07/2015

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Andrezinho foi do sétimo ao térreo pela escada, acenou “e aê?” pro Seu Antônio, botou o nariz na rua, deu meia volta, justificou com “friaca, brother!”, voltou ao sétimo de elevador, vestiu casaco do Hard Rock Cafe, achou pouco e tacou jaqueta do Vasco por cima, catou a medalhinha de Nossa Senhora, trocou chinelo por tênis sem meia, desceu novamente a pé, soltou “agora eu fui!” e sumiu na multidão da Praça São Salvador.

Clément afastou a persiana, conferiu o Cristo nublado, checou doze sites meteorológicos, guardou o protetor solar na mala, colocou camiseta de 58, a 10 azul, combinou com calça Capri branca, estreou novo par de Havaianas, passou pela recepção, escutou “bom dia”, respondeu “obrigado”, caprichou no “r”, selecionou Jorge Ben, aumentou o volume, consultou o GPS e dobrou à direita depois dos arcos.

Lourdes mirou o espelho, empetecou-se de blush, ajeitou os cachos brancos, alcançou o sobretudo azul, abandonou pelo vermelho, preferiu o preto, pensou no bege, decidiu-se pelo marrom, o único sem cheiro de mofo, escolheu um cachecol de lã, um par de luvas de couro, o broche de Jesus, engoliu os dois remédios, reclamou do efeito do clima nos joelhos, disse tchau pro Byron, recebeu uma lambida de volta, abriu a porta de casa, fechou a grade da vila e pareceu pequena ao lado das palmeiras da Rua Paissandu.

Tati postou uma selfie, faturou cinquenta e seis likes, lamentou não inaugurar o biquini, ganhou mais trinta e sete, comentou três posts, compartilhou uma foto de gatinho, ignorou o ascensorista, marcou a Jana em texto sobre Miami, curtiu a página do Papa Francisco, saiu no segundo, percebeu tarde demais, pegou o próximo, deixou um “olá” sem resposta, mandou zapzap, ficou na garagem, tirou o casaco da Zara, escondeu a Victor Hugo no porta malas, ligou o Audi e furou o sinal no Aterro.

Jorge levantou-se do banco, ensaiou polichinelos, levou as mãos às costas, ergueu-as para os céus, tentou proteger os braços dentro da blusa, desistiu, procurou abrigo contra o vento, desviou de horda de pombos, invejou o pulôver da jovem, virou o último gole da garrafa, entrou na floricultura, espirrou de alergia ao pólen e distanciou-se do Largo do Machado.

Clément e Tati esbarraram-se na entrada da igreja, Andrezinho e Jorge estavam lá dentro, Lourdes subia lentamente a ladeira. Nenhum deles se conhecia. Todos foram ao Outeiro da Glória orar pelo fim do inverno carioca, que já durava três dias.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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