Suflair [Rubem Penz]

Posted on 26/06/2015

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Rubem Penz*

Minha voz, se vós não sereis minha

Vós não sereis de mais ninguém

Chico Buarque

Tenho qualquer coisa de louco, todos sabem. Mas, ao invés de ouvir vozes, sintoma tradicional, venho as treinando. Não com a finalidade de ser um imitador profissional, desses que aparecem em programas de auditório ou comédias em pé. Tampouco busco vozes consagradas – tipo as do Silvio Santos, Brizola, Roberto Carlos… Na verdade persigo vozes mais utilitárias, aplicadas com algum ganho no dia a dia. Vozes que emoldurem o enunciado.

Nos últimos dias tenho concentrado esforços em aprender a voz do Herson Capri. Consegue ouvi-la de memória sem precisar recorrer à novela do momento? Não? Vou descrever: ela é mais grave, assim gutural. Parece nascer em outro lugar, vizinho próximo das cordas vocais. Também carrega um excedente de ar que deixa tudo meio suflair. Além do mais ela é pausada – nada daquela dicção fragmentada dos inseguros. Sua melodia é econômica, meio joãogilbertiana, e sussurra. Herson Capri tem a voz do topo da pirâmide alimentar.

Minha ideia é sempre reproduzir com essa voz algumas frases de efeito, notadamente próximas ao ouvido. Aproveitar aquilo que poderia ser considerado desperdício de oxigênio para fazer cosquinha e arrepiar a nuca. Da gravidade, ganhar força de caráter e confiança. Auferir charme irresistível com a musicalidade contida. Eu com essa voz, na frase certa, quando somada a uma suave pressão das mãos na cintura, nossa! Quem experimentou carrega um sorriso no rosto.

Só tem um problema. Sempre tem um problema, né?

É necessário treinar bastante para jamais parecer falso. E são poucas as frases de efeito, bem como não estou a toda hora de rosto colado em busca dos deliciosos arrepios. Por isso, falo frases comezinhas ao molde Herson Capri (lembrando: gutural, aerada, melodiosa e lenta). Por exemplo (leia imaginando escutar o HC):

– Duzentos gramas de presunto magro, por favor.

– Não, não: é na conta poupança.

– A senhora primeiro, por gentileza.

– Um escondidinho de charque e o chope só quando vier a comida.

Pois é: as pessoas ficam me olhando com a maior cara de espanto… E tudo pode ser pior. Sempre pode ser pior, né? Acontece que aquela a quem desejo arrepiar quase se dobra às gargalhadas quando um insuspeitado Herson Capri atrás do volante se vira para ela e diz:

– Não vejo a hora de chegarmos para ir ao banheiro…

Preciso urgentemente treinar sozinho, defronte ao espelho. Ou criarei um inevitável (e péssimo) efeito colateral nesta imitação: tudo parecerá comédia aos pés do ouvido.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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