O amargo [Marco Antonio Martire]

Posted on 24/06/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

Eu tenho acompanhado o debate sobre o valor do sal e do açúcar em nossa dieta contemporânea. Entre o doce e o salgado, ficamos como se entre o fogo e a frigideira, surge a obsessão por esta dialética: ela gosta mesmo é de brigadeiro, ele cai de boca em qualquer coxinha.

Outro dia um sabor amargo forçou uma discussão da relação:

– Onde é que você foi?

– Estava com a turma.

– Seu beijo está com gosto de petisco.

– Está é?

– O que você comeu?

– Comi um queijinho.

– Que queijo o quê! Parece alho, você comeu alho?

– Belisquei um frango à passarinho, amor.

A palavra amor no final da frase queria dizer desculpa, ele já imaginava o esporro que poderia vir logo adiante. Talvez fosse possível suavizar a bronca apelando para a paixão do início da relação, os dois costumam fazer isso. Ele tentou, mas não deu certo. O amor na história virou uma faca de dois gumes, foi a senha para o início da DR.

Ela não tolera o sabor amargo de tê-lo esperado por tanto tempo sem que desse qualquer notícia. Para ela este amargo é feito de algumas renúncias, possui uma liga que provoca ansiedade e insegurança, por isso ela rejeita o amargo onde o amargo estiver. Nem o manjericão fresco da pizza é tolerado, a dama precisa é de chocolate, doce de leite, sorvete.

Para ele o amargo da cerveja incomoda, nem é de beber muito, come mais petisco do que bebe, o que não o impede de ficar tonto. O amargo dele é feito de uma acomodação que não consegue evitar, o cotidiano reina sobre o desejo e sua criatividade está bloqueada. Beber não resolveu o problema, mas o frango à passarinho estava delicioso, comeria duas travessas inteiras daquela.

Discussão de relação é um troço delicado e talvez seja essa a razão pela qual muita gente a detesta. Tem que ser sutil, tem que ser franco, tem que ser honesto, tem que ser paciente, tem que ser atento. Não pode ser burro: nunca seja amargo. Ser amargo é proibido na discreta arena de uma discussão de relação. Ganha-se como prêmio pela decisão temerária o fim da esperança. E sem esperança tudo o que se consegue é uma inimiga terrível pela vida afora.

Mas sobre a sina do amargo… creio que o amargo pode ser algo posto na salada misturado com uma porção de comida excelente. O amargo serve para muitas coisas, no mínimo serve para a gente dar mais valor ao sal e ao açúcar. Não pode ser aquele amargo frio que invade congelando o coração, mas pode ser a medida certa que devolve o sabor gostoso da vida.

Este cronista fala, mas não pratica o que diz. Sou um que não aguenta amargor, comi jiló uma vez para nunca mais, não adianta nem esconder o jiló no prato, aquele será detectado. Também ainda não aprendi a beber café sem açúcar ou adoçante. Talvez um dia eu chegue lá.

Penso: que mal há em ser amargo um tanto?

Melhor que azedar a alma de vez.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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