Notícias da chácara [Domingos Pellegrini]

Posted on 22/06/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

DESDE CRIANÇA tomo banho com bucha. A praça onde fazemos ginástica tem creche, em cujo alambrado um pé de bucha cresceu, bonito como só, sempre com flores amarelas e buchas que a gente vê crescer de um dia para outro. Colhemos uma, tingimos de vermelho, colocamos olhos de botões e tornou-se uma cobra a enfeitar a mesa da sala.

MARACUJAZEIRO cresceu demais, todo se enramando nos arames entre dois esteios,  suas ramas se espalhando  pelas mandioqueiras, e, como recebia pouco sol, os maracujás estavam miúdos e demorando a madurar. Cortei com dó e surpreso de achar vinte maracujás, que depois amadureceram e deram ótimo suco. Bebi lembrando do companheiro que, mesmo sendo ceifado, nos deixou aroma e sabor.

TEMPESTADE deixou calha por consertar, derrubou galhos secos que catei para a fogueira dos netos, e derrubou também trepadeira, daí aproveitei para também consertar seu caramanchão. Obrigado, tempestade / por tudo que já me deste / tanta coisa por consertar / e enfim esse azul celeste.

VELHAS BOTAS de borracha me apertaram os pés durante década e meia, e ainda estavam em condições de uso, quando mais uma vez reclamei do esforço para tirar as danadas dos pés, e Dalva perguntou porque, ora, eu não comprava botas novas e maiores. Comprei, e  toda vez que calço, fico perguntando porque fiquei mais de década sofrendo com as velhas botas. Às vezes a gente sofre por pura bobeira.

RECEITA para acompanhar assados: batatas-doces embrulhadas em papel laminado, ou, na meia hora final do assamento, bananas com casca. As batatas ficam muito mais gostosas que cozidas,  e as bananas viram doce sem açúcar. Se quiser sofisticar, espete cravos numa maçã e bote no forno meia hora antes de tirar o assado. Como disse da Vinci, simplicidade é o máximo da sofisticação.

MACACÃO  de lidar na chácara, quanto mais velho, mais gosto. Está remendado, o brim afinou de tantas lavagens, um dia virará pano de chão. Mas, antes, faço-lhe um poeminho:

Você me agarra porque

o suor empapa o pano

e eu me transformo em você

você se torna humano

Meu macacão companheiro

meu eu em forma de  brim

com meu corpo e meu cheiro

até que tiro de mim

Só mesmo a minha sombra

anda tão junto assim

Das canelas até os ombros

terei saudade de ti

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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