Algumas definições do amor [Raul Drewnick]

Posted on 21/06/2015

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Raul Drewnick*

O amor será como o aroma deixado por uma flor numa gaveta aberta muitos anos depois. Dela não terá restado mais que um pó de cor indefinida, e a empregada, com o pano na mão, para a limpeza, imaginará aspirar a brisa que vem do jardim e entra pela janela.

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O amor será sempre como aquele gatinho que, morto há muitos anos, insistimos em ter visto ainda, certos dias, lambendo as patinhas no sofá.

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Mesmo que precisemos alterar alguns fatos, dar uma roubadinha aqui e uma furtadinha ali, o amor há de parecer sempre puro para nós, como era no início, quando ainda não precisávamos manipulá-lo com nossas pequenas falcatruas.

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O amor agora é para ele como um avô de barbas bem brancas que conta histórias sem nexo, e a todo instante, mesmo debaixo do sol, queixa-se de frio nas mãos.

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Depois de esperarmos por três dias, o secretário do amor veio nos dizer que ele não iria poder atender-nos. E, para desculpar o patrão, nos piscou e disse, baixo: “Sabem, são aquelas coisas dele. Ele está outra vez apaixonado. Vocês acreditam?”

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Morrer por amor é uma dessas raras expectativas que podem estimular um homem a continuar vivendo.

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Aos que morrem por ele, o amor reserva um espaço no seu solo sagrado: aquele onde nascem os lírios e as rosas.

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Morrer por amor é mais que uma sina; é um privilégio.

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Há duas maneiras de estar vivo: ou pelo amor ou apesar dele.

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As mulheres identificam-se de modo tão perfeito com a beleza e com o amor que é como se tivessem nascido na mesma época.

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Depois que morre o amor, a vida se arrasta como um cachorro estropiado.

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Censurar o amor é como falar mal de um passarinho porque não conseguimos entender o que diz seu canto.

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Não há por que duvidar. O amor é o melhor motivo para um homem se matar ou para manter-se vivo.

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O amor é aquela estupidez pela qual se sacrificam família, pátria, religião, honra e alma. O amor é a única estupidez que vale todas as estupidezes. O amor é o rei dos reis.

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O amor é tão tolo, tão inconsequente, tão estouvado, tão insano, e tão maravilhosamente, tão magnificamente, tão estupendamente, tão inigualavelmente perfeito.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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