O canto de Savannakhet [Mariana Ianelli]

Posted on 20/06/2015

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Mariana Ianelli*

Digamos que o poeta tenha razão e cada voz tenha sua vez e sua parte no coro total do mundo. Que existam melodias e contramelodias para tudo o que acontece no mundo. O canto de Savannakhet, então, hoje, ouve-se muito.

Quem o inscreveu na musicologia do universo foi Marguerite Duras. O canto de Savannakhet é o canto de uma mulher que foi expulsa de sua casa, uma mulher que desde então caminha. Durante dez anos ela caminha, esmolando. Atravessa o Laos, o Camboja, a antiga Birmânia. Vai de Savannakhet a Calcutá. Quando chega a Calcutá, já está completamente louca.

O canto de Savannakhet é um misto de grito e riso, a melodia da casa que falta para alguém se recompor, a melodia de alguém que se perdeu, que vendeu seus filhos pelo caminho, e pelo caminho foi enlouquecendo, assim, sem cura, se quebrando sem a bênção de um dia depois de outro, que um dia depois de outro só é bênção quando nada no rosto nem no corpo acusa que ambos já estiveram a um passo de desistir de muitas coisas.

Sem casa, recompor-se como? Pessoas quebram-se ao ar livre, enlouquecem ao ar livre. No lugar de Savannakhet, cabe o nome da terra de origem de cada refugiado do campo de Maungdaw. No lugar de Savannakhet, cabe o nome da casa perdida de cada um nos campos Rafah ou Bait Rejal, de Rwamwanja ou Dadaab, cabem os nomes das cidades perdidas de cada família em cada tenda dos acampamentos de Khazir e Al Yarmouk.

Em Myanmar, o olho de peixe espantado do menino Ayub, no colo de sua irmã, acusa. Um dia depois de outro, ali onde Ayub está, não abençoa. Sem casa, recompor-se como? Canta-se. O canto de Timbuktu, o canto de Kampot, o canto de Addisz-Abeba, o canto de Damasco. Canta-se diuturnamente. Canta-se mesmo muito.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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