Afetos visíveis [Madô Martins]

Posted on 19/06/2015

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Madô Martins*

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,

                                   alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,

em que todos se debruçavam

na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

 

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes

e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.

Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava

que rebentava daquelas páginas.

 

Sempre me comove esse poema de Drummond. E sempre me fascinam as fotografias, em álbuns, paredes, jornais, pela magia de segurar o tempo – mais ainda, o instante. É quando chego a acreditar que a imagem vale mais que as palavras, porque alcança mais rápido o cérebro, sem a necessidade de decodificar a linguagem, com menos risco de erros na interpretação.

Nas casas onde vivi quando menina, não havia retratos à mostra. Colávamos as fotos em álbuns (ainda não havia os adesivos) reservados apenas ao deleite da família. Na avó materna, lembro de um único porta-retrato sobre a cômoda, com o rosto da bisavó cujo nome jamais soube. Na paterna, dois quadros grandes, com fotografias coloridas a mão, me intrigavam: os bisavós me seguiam com os olhos, para onde quer que eu fosse naquela sala.

Algumas fotografias impressionam tanto a retina e a memória que delas não se esquece pelo resto da vida. As do suicídio de Getúlio Vargas, por exemplo, expostas com alarde pelas revistas semanais da época que li aos cinco anos. Imagens de desastres de grandes proporções, sempre abarrotadas de sapatos abandonados. As obras-primas de Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Araquém Alcântara, Cristiano Mascaro. Os registros de meu filho, que trazem explícito seu olhar crítico sobre o mundo.

Em minhas casas de adulta também não havia retratos, por mais que gostasse deles. Repetia o modelo apreendido, sem imaginar o prazer que dá rever entes queridos numa simples passagem pelos cômodos. Mas, sempre é tempo de rever conceitos. “Mudança é vida”, como costuma dizer um amigo que há muito não encontro e de quem não possuo uma única foto.

Agora, madura, resolvi criar minha galeria particular de afetos visíveis. E optei pelos vivos, deixando os que já partiram nos velhos álbuns, onde repousam em paz. Aos poucos, começo a espalhar pela casa porta-retratos de meus amores e me faz muito bem estar com todos eles logo pela manhã, ao atravessar a sala em direção à cozinha, ou a qualquer hora, quando venho aqui ao estúdio para escrever.

São como pequenos pontos luminosos, pulsando vida, despertando sentimentos, motivando meus dias. Emoções que traça nenhuma há de roer. Nunca.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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