Caixas de sapato [Elyandria Silva]

Posted on 18/06/2015

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Elyandria Silva*

Parada ali dentro, no centro da loja, ela olhava para um nada que ninguém via, os olhos mudos. Talvez torcesse para que ninguém entrasse, não naquela hora, não naquele dia porque só queria ficar sozinha e quieta no pequeno mundo de sapatos. Mesmo assim, entramos, abaixei os olhos, fiquei constrangida por ter de contrariá-la. Não conhecia aquela moça, mas era visível como estava cansada de ser ela mesma, não exatamente de viver a vida que levava, mas de carregar por toda a parte a pessoa que havia se tornado. E, claro, de carregar para cima e para baixo todas aquelas caixas de sapatos.  Porque é pesado carregar fardos desnecessários.

Uma vez costumava comprar três sapatos cada vez. Os pares se acumulavam em armários impróprios como presos que se ajeitam do jeito que podem em celas agonizantes na esperança de algum dia reconquistar a liberdade. A cada caixa de sapato trazida e aberta, a cada numeração conferida, a cada decepção quando a sandália não servia, o desejo oculto de uma nova personalidade, de um renascimento. A moda é cíclica, se tivesse guardado as plataformas de cortiça hoje não precisaria comprar de novo.  Apoiou-se nos joelhos, os dedos espalhados no chão, paralisou o olhar nos pés multifacetados que passavam apressados do lado de fora fazendo um esforço para esboçar o sorriso das comissões. Belas unhas azuis, tão perfeitas. Quis perguntar que marca era aquele esmalte, mas preferi ficar quieta. Minha cor predileta, o azul!

Sapatos dourados dão a sensação de que os caminhos a serem percorridos tornar-se-ão mais glamourosos. É uma ilusão brilhante que faz bem e precisamos disso todos os dias, digo, de ilusões com brilhos. Bom ter esse recurso ao alcance das mãos. Provei e aprovei, ficou bonito! Uma vendedora triste deixa uma compra triste. Sei disso porque já fui vendedora de loja, porém, mesmo nos piores dias me vestia toda de alegria porque os clientes mereciam, mesmo aqueles que não compravam nada.  Aí, toda aquela felicidade de mentira vazava dentro de mim e, às vezes, durava o dia inteiro.

Queria comprar todos os sapatos da loja, assim a comissão dela seria ótima, mas era apenas um sonho porque ninguém leva uma loja inteira de sapatos. Uma senhora também provava sandálias. O sistema lento, como sempre. Os joanetes da mulher pareciam que iam saltar a qualquer momento. Não posso reparar, também os tenho. Dizem que a cirurgia é complicada. “Você tem pés de princesa”, ouvi de alguém na adolescência. Pronto, mais uma vez sou capturada pela moda. Caminhamos em direção à porta. Sorrimos juntas. Temos nomes diferentes, bonitos, elogiados. Ela, se pudesse ter outro nome, deveria se chamar Serena. Eu, se fosse me batizar de novo, chamaria Marjorye.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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