Janjão [Domingos Pellegrini]

Posted on 15/06/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Estou comendo em restaurante, ele surge pedindo desculpas, não quer atrapalhar meu almoço, só perguntar se lembro dele.

– Claro, você é o Janjão!

Ele sorri feliz, levanto  para o abraço.

– Quanto tempo – ele diz com olhos úmidos.

 – Meio século.

Diz que lê minhas crônicas, e que sempre lembra do dia em que, no colégio, inventaram de premiar quem tivesse mais irmãos.

– Um rapaz tinha quinze irmãos, uma mocinha tinha catorze, e ele ia ser o premiado, mas você falou não, dêem para ela, que ela precisa mais.

Bem, me lembro tanto disso quanto de minhas fraldas. Quem teria inventado o tal prêmio? A direção do colégio, algum professor, um grupo de alunos? Me contento com o contentamento de Janjão, a novamente me abraçar, repetindo que não quer atrapalhar meu almoço.

– Janjão, almoçar eu almoço todo dia. Mas não é todo dia que revejo  um colega depois de meio século.

Rimos, e sabemos que ficará por isso. Ele talvez até dê um cartão, dizendo aparece para um café, mas não, ele se vai com a elegância de sempre, o Janjão já era elegante –  nos gestos, nas atitudes – desde o tempo do colégio, tão distante e tão vívido.

A molecada descia as escadarias correndo, num atropelo que fazia as meninas irem para as beiradas, colando-se nas paredes e praguejando.

Os buços iam virando cinzentas taturanas acima dos lábios, até que um dia sumiam, e a gente sabia que mais um começava a fazer a barba.

O recreio era para os moleques uma correria, para os rapazolas um torneio de olhares, os flertes começando namoros.

E coragem para chegar na menina e dizer oi? O coração pulava tanto que eu ia ver no espelho do sanitário se a camisa não estava palpitando.

Moleques voltando para as salas com os cabelos escorridos de suor. Meninas trocando segredinhos aos cochichos e rindo às gargalhadas.

Moleque passando com ruído de vidro, as bolinhas de gude se batendo nos bolsos.

A professora fazendo a chamada, nome por nome, até o Yoshi, a responder tão baixinho que, todo dia, a gente repetia em coro: – O Yoshi tá ali! – e ele sorria.

Naquele tempo a gente já tinha inventado o pau de selfie, um espelhinho grudado na ponta duma varetinha de guarda-chuva, para esticar até o piso e ver a calcinha da professora quando ela parava ao lado da próxima carteira.

Na saída, o Rei do Quebra-Queixo estava lá na calçada, com seu tabuleiro na traseira da bicicleta e a espátula para tirar as porções e colocar no pedaço de papel, que a gente lambia depois de comer o doce.

Um dia, comi sete espetinhos no Bar da Dona Rosa, o Sérgio Campanelli ficou sabendo, no dia seguinte foi lá e comeu oito.

A gente era risivelmente incrível, e tenho de parar por aqui porque não consigo escrever com cisco nos olhos. O cisco da saudade, do espanto (meio século!) e da ternura, essa embalagem das boas lembranças. Obrigado, Janjão!

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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