Sexo e poder [Luís Giffoni]

Posted on 13/06/2015

2



Luís Giffoni*

Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a tolice campeia. Entre a divagação e a práxis, entre a tevê e o blog, entre o aqui e o além, entre o céu e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para todo tipo de asneira e quimera, defendidas por argumentos à primeira vista racionais. Por mais estapafúrdia que seja a pregação, ela sempre consegue seguidores, da limpeza étnica ao suicídio coletivo de uma seita em nome de uma nave espacial escondida atrás do rabo de um cometa. O suicídio coletivo aconteceu há alguns anos, a limpeza étnica ocorre ainda hoje.

Sandice, que não é privilégio de nosso tempo, quando investe contra a natureza humana, costuma buscar o respaldo divino para consolidar-se. Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, o ascetismo era modismo, incensado como o melhor caminho para chegar a Deus. A carne significava a perdição: a mulher como um todo e o homem, da cintura para baixo, eram criações demoníacas. São Paulo julgou o celibato superior ao casamento. Dois influentes pensadores da época, Agostinho e Jerônimo, pregaram contra o ato sexual, tachando-o de repugnante e sujo. Na mesma linha de repúdio, Tertuliano considerou-o vergonhoso; Arnóbio, nojento e degradante; Ambrósio, podre. A condenação sobreviveu através dos séculos, provocando desde a autocastração de Orígenes até, durante a Era Vitoriana, o conselho de alguns médicos aos maridos ingleses para procurarem prostitutas, porque o orgasmo pago seria menos envolvente – menos pecaminoso, portanto – do que com as próprias esposas. Aliás, Freud, vitoriano de formação, debruçou-se com exagero sobre o sexo varrido para debaixo do tapete, reflexo de seu tempo. Libertou-se de totens e tabus, mas criou outros.

Resultado do modismo da abstinência sexual: culpa para milhões de pessoas. Todo psicanalista deveria acender, a cada dia, uma vela para santo Agostinho e outra para são Jerônimo, agradecendo-lhes os clientes dilacerados pelo confronto entre um instinto desenvolvido pela natureza durante milhões de anos e uma filosofia incensada por meia dúzia de homens há meros vinte séculos. O celibato, abstinência levada ao paroxismo, é contra a vida. Se generalizado, mais louco que o suicídio de uma seita inteira em nome de um cometa, mataria toda a espécie. Outro paradoxo: ainda o defendem no século 21. Da boca para fora e da porta das igrejas para dentro. Controlar o ato sexual alheio dá poder. Muito poder.

Ideias são produto de nossa mente, sujeitas, portanto, a modismos, do esbanjamento à virgindade – há quem, no outro extremo, julgue a pobreza e o tantrismo os grandes caminhos para a realização terrena. O ser humano, apesar das cambiantes concepções de mundo que adota, tem sido o mesmo em qualquer época. Basicamente, sobrevive e procria – em resumo, sobrevive para procriar. Para facilitar a tarefa, criou as civilizações e as culturas. Ao observá-las à distância, constatam-se as investidas contra as pessoas, as crendices apregoadas, as milenares superstições que perduram, as hipóteses de trabalho tornadas verdades, os delírios entronizados nas mídias, a falta de senso crítico. Por mais cruéis e insustentáveis que sejam alguns pontos de vista, jamais nos livraremos deles. Ainda bem. Isso se chama convívio, tolerância. A diversidade faz a beleza do mundo – um mundo cheio de graça, por sinal. Oxalá a graça do mundo não seja modismo.

_________

Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized