Hoje não vou falar de amor [Rubem Penz]

Posted on 12/06/2015

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Rubem Penz*

Hoje.

Hoje é o dia depois do outro e que antecede os insidiosos suspenses do amanhã. Parecido com aquele dia de ontem e, ao mesmo tempo, quase sua negação. Dia de preparar surpresas secas por falta de saliva. Soltar pipas. Misturar-se ao joio de um trigal urbano, fazer careta para o espelho, procurar em poetas malditos os versos da nossa improvável redenção. Dia de comemorar a loteria perdida – ela é quem traz de volta a promessa de boa sorte. Dia de lavar a alma em água corrente.

Hoje não.

Não, e (des)conto a razão: hoje não é dia de matemática, de números, de grandezas. Suspenda imediatamente esse balanço que auditor nenhum acreditará. Dia bobo, ele, fadado às justas incertezas. Precisas dúvidas. Cínicas verdades. Não me venha com essa de garantias estendidas que hoje não é dia das letras miúdas dos contratos. Está mais para voo cego. Mais para física. Ou para química. Dia de línguas vivas e mornas. De saber o que cai na sabatina e, mesmo assim, esquecer o tanto que deveríamos estudar a cada gesto.

Hoje não vou.

Nem adianta pedir, porque não vou. Hoje, ora bolas, não é dia de ir. É dia de ficar. Fica comigo? Podemos ficar assim ou assado, por cima ou abaixo de mau tempo, agitados ou cuidando para não fazer ondinha. Podemos até ficar com sono, desde que o sonho seja doce. Ficar implicando um com ou outro é ótima pedida. Depois, ficar de beicinho até um segundo antes de cair de boca. E ficar ali, parados, nem acreditando – o que é muito diferente de ficar em dúvida.

Hoje não vou falar.

Nada precisa ser dito. Lembra que já disse isso? Pois nem isso precisava dizer, eu sei. Meu silêncio sempre foi o mais fiel porta-voz. Calo com sentimento. Por trabalhar com as palavras, perdi delas a condição de amadoras. Então, hoje desejo olhar mais do que descrever. Agir sem o menor prenúncio. Ofertar. Esquecer o texto e, no improviso, compor alguma chance de pura verdade. Caprichar na pantomima, na coreografia, no sorriso. O silêncio hoje é preciso.

Hoje não vou falar de amor.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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