Um punhado de coisinhas [Raul Drewnick]

Posted on 07/06/2015

5



Raul Drewnick*

Quando, depois de lhe encherem os bolsos com pedras, atiraram o amor ao rio, passou em voo rasante um pássaro acusador: eu vi, eu vi, eu vi.

***

Os poetas antigos só precisavam de três coisas para viver: pão, água e amor – não necessariamente nessa ordem.

***

A literatura brasileira e Dalton Trevisan moram na mesma cidade: Curitiba. Nas raras vezes em que ela e ele são vistos, estão sempre juntos.

***

Hesitava entre mandar de presente à amada um gato ou uma quadrinha. Optou pelo gato, porque lhe pareceu pouco provável que, mesmo com seu temperamento romântico, a amada beijasse uma folha de papel.

***

Um romance pode ser analisado sob vários pontos de vista. Às vezes o mais acertado é o do autor.

***

Quando o fazendeiro fechou de tal forma os galinheiros que eles se tornaram inexpugnáveis, os lobos vingaram-se devorando o espantalho.

***

A abertura de um parágrafo deve dar sempre ao leitor a esperança de que o texto possa enfim melhorar.

***

Capitu não era para o bico de Bentinho.

***

Verbos como precisar, carecer e ansiar são portadores de necessidades especiais.

***

Os colchetes são parênteses que não deram certo.

__________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized