O fantástico mundo de um gari do bois de Boulogne [Mariana Ianelli]

Posted on 06/06/2015

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Mariana Ianelli*

Marcel Storr tinha tudo para ser um derrotista. Bastava considerar os fatos. Filho da Assistência pública (como Jean Genet), entregue para adoção pela própria mãe (como Jean Genet), meio surdo de uma trepanação que sofreu durante a infância, maltratado, pobre, sozinho, doente, um gari do bois de Boulogne. O derrotismo seria como um desdobramento óbvio.

Mas Marcel Storr se dizia um urbanista. Desenhava em grandes folhas de Canson. A princípio, igrejas. Depois, torres gigantes, em seta, picando o céu. Depois, cidades inteiras, minusculamente trabalhadas e coloridas, megalópoles fantásticas, babélicas, futuristas.

Françoise Cloarec, que escreveu sobre a vida e os desenhos de Marcel Storr, viu nele um homem destruído que construía, que projetava inspirado nas torres modernas de la Défense e em fotos exóticas da revista L’illustration. Um homem destruído, renegado, semi-analfabeto, que recebia em miséria o tanto que devolvia, ou acreditava devolver, em delírios de construção.

Ele dizia que quando Paris fosse atingida pela bomba atômica tudo poderia ser refeito a partir de seus desenhos. Que o presidente dos Estados Unidos viria procurá-lo, atrás de seus desenhos. No fantástico mundo novo de Marcel Storr, o que se vê não é só uma Paris islamizada, são também templos jainistas, catedrais russas, igrejas medievais, palácios, arranha-céus, pirâmides, totens de civilizações antigas, cúpulas como flores de alcachofra, revoadas de pássaros, alamedas, pontes, loucos viadutos. A formulação visionária, por um gari do bois de Boulogne, de um mundo pós-terror.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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