Como os romanos [Madô Martins]

Posted on 05/06/2015

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Madô Martins*

Roma foi nossa primeira parada, na recente aventura pela Europa. O céu nos recebeu nublado e estivemos sob chuva dias inteiros. Formamos um casal que gosta de vagar sem destino pelas ruas e assim, por acaso, descobrimos a igreja Santa Maria Majore, que domina a paisagem com sua imponência, numa praça por onde passam todos os ônibus de passeios turísticos.

Na segunda manhã, embarcamos em um deles, de dois andares, e pareceu que participávamos de algum filme cômico, porque, a cada curva, a chuva invadia o ônibus e molhava os passageiros e as câmeras. Mesmo assim, pudemos perceber a fascinante convivência das inúmeras ruinas com prédios atuais, indiferente ao trânsito caótico da cidade – de repente, um resto de parede e coluna milenares surgem na calçada; automóveis atravessam arcadas onde antes passavam bigas -, e ainda andamos de bonde, que, diversamente de onde vivo, também existem por lá, mas como meio de transporte coletivo.

O Coliseu estava em obras, a Fontana de Trevi estava em obras, o que me frustrou bastante. A beleza de ambos, porém, é inegável, mesmo entre andaimes. Assim como nos monumentos das pontes, na imensa Praça São Pedro, nas muralhas ao lado de edifícios da mesma altura, nos chafarizes, nas avenidas largas e arborizadas, nas laranjeiras urbanas carregadas de frutos.

No hotel onde ficamos, as laranjas também estavam presentes, em forma de suco, no café da manhã. A caminho do refeitório, o piso de mármore diante do elevador nos saudava na entrada e na saída, com a palavra “ciao” escrita nos dois sentidos. E como a chuva persistisse, notamos que um certo guarda-chuva não dobrável, de várias cores mas sempre com uma tarja branca, era a moda do momento.

Na primeira noite, fomos a uma cantina, com mesas muito próximas umas das outras ocupadas por pessoas de várias nacionalidades. No meio da janta, a moça a nosso lado, que parecia alemã, não resistiu e me perguntou: “Que língua vocês falam? É tão bonita!”. Respondi, e ela me revelou que o pai descendia de portugueses, mas não ensinara o idioma para os filhos, o que lamentava…

Na noite seguinte, para compensar o mau tempo, escolhemos jantar sopa de legumes e vinho, num restaurante meio escondido no bairro tido como um dos mais intelectualizados, frequentado por artistas. A comida do “Velha Roma”parecia feita pelas avós e me encantei ainda mais, quando um músico tocou seu acordeão por um bom tempo, acariciando nossos ouvidos. Como presente adicional, ganhei do dono do estabelecimento uma cópia do cardápio de 2014, que traz na capa a foto de Alberto Sordi saboreando uma bela macarronada. O deste ano homenageia Totó, de quem também sou fã até hoje. Satisfeitos com a noite prefeita, voltamos abraçados para o hotel, pisando em paralelepípedos úmidos, como nos filmes antigos.

Só no último dia, o sol finalmente apareceu. Como nós, andorinhas e gaivotas espalhavam-se pela cidade, enquanto igrejas tocavam os sinos e corvos piavam alto como nossos bem-te-vis. Estava frio e, nas feirinhas de rua, o campeão de vendas era um casaco de nylon com gomos, que víamos por toda parte, vestindo homens, mulheres e crianças. Comprei um, que me acompanhou com eficiência o resto da viagem. Foi quando percebi que muito do que fizemos naquela breve visita foi cumprir o recomendado pelo velho dito: “Em Roma, como os romanos”.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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