A Avenida Nossa Senhora de Copacabana [Daniel Cariello]

Posted on 04/06/2015

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Daniel Cariello*

Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana é preciso desviar das gentes, dos operários sempre consertando um cano estourado ou uma instalação elétrica que deu ruim, dos camelôs, dos polícias olhando os telefones ao invés de olhar os arredores, e dos gatunos olhando os arredores para terem certeza de que os polícias estão olhando os telefones e os pedestres estão observando os operários.

É uma aventura abrir caminho na Nossa Senhora de Copacabana às seis da tarde, quando todo mundo está cansado e quer voltar rapidão pra casa depois de passar o dia em escritórios, agências de publicidade, consultórios de dentistas, lojas de sapatos, Lojas Americanas, bancos, lanchonetes de suco, elétricas, sendo homem-cartaz, engraxate, vendedor de sinal, todos esses profissionais formais e informais atrás de dinheiro para pagar o sustento e poderem voltar ali no dia seguinte.

Dizem que se os habitantes de Copacabana saíssem de casa ao mesmo tempo não haveria espaço na rua para todo mundo. Aí o desafio de andar pela Avenida seria ainda maior e as gentes deveriam caminhar em fila. O simples ato de atravessar o sinal poderia demorar uma hora e meia e pedir um café no boteco tomaria o dia inteiro. Chegar à praia, nem te conto, é melhor nem pensar nisso.

Os operários, coitados, não têm culpa do caos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Eles estão ali tentando resolver um encanamento-gambiarra, um recapeamento-gambiarra no asfalto, uma instalação elétrica-gambiarra. O Rio de Janeiro é uma gambiarra tão grande, com fios, tomadas, interruptores velhos, fitas isolantes, remendos, rejuntes gastos, puxados, improvisos, quebra-galhos, todos esses jeitinhos formando um gato enorme que há um medo não dito de uma gambiarra na Baixada Fluminense entrar em curto-circuito e a reação em cadeia fazer cair a luz da cidade. Pra sempre.

Apesar disso, ou por causa disso, é ótimo andar por ali. Menos de carro, pois a coisa não avança nem com reza braba e se eu fosse você evitava a façanha a todo custo. A pé é melhor e dá pra parar pra tomar um suco de futa do conde e um sanduíche de peru com queijo minas, dá pra fuçar as antigas galerias, dá pra comer bolinho de bacalhau com chope, dá pra descobrir um sebo e gastar umas horas, dá pra ir ao cinema e ao teatro, dá pra ter diversão de adulto quando cai a noite, dá pra observar todo tipo de gente, bebê, criança, adolescente, adulto, velho e até, dizem, umas almas penadas, dá pra bisbilhotar as bugigangas made in China vendidas pelas centenas de barracas de camelôs made in Rio mesmo.

A Avenida Nossa Senhora de Copacabana é um universo. Quando a gente menos percebe, está ali, de bobeira, observando a vida acontecer de forma ininterrupta, até que passa um pivete correndo mais que onça pintada, toma sua carteira e sai costurando entre gentes, operários, polícias em seus telefones, fords, chevrolets, fiats, renaults, peugeots, mercedes, segways, muletas, carrinhos de bebê, cadeiras de rodas, triciclos, bikes, motos, todo esse mundão até desaparecer pra sempre no buraco negro da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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