Carta aberta aos amigos do peito [Ana Laura Nahas]

Posted on 03/06/2015

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Ana Laura Nahas*

A verdade é que ando profundamente em falta com vocês.

Eu podia depositar a culpa na raridade do tempo, nas tarefas postas na lista robusta de tarefas postas, nas obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes à espera de um sinal, na agenda com mais atribuições que prazeres. Podia responsabilizar o tamanho do trabalho, reuniões para participar, contas para fazer, gavetas para organizar, projetos para realizar, prazos para cumprir, um depois do outro, como a autoridade policial à espera do deslize.

Podia reafirmar o fato de a coluna pesar o peso todo do mundo ou então trazer à tona os dias em que o que pesa além da conta são os olhos, supermercado, academia, conserto, a compra que a loja entregou errado, o condomínio, a geladeira, a faxina, banco, jantar, o exame que exige paciência, o encanador, a cadeira, a formatura, a visita, a encomenda, a culpa, o horário, a vida, o peso todo.

Eu podia dizer que simplesmente não deu, que o desalento venceu a força do braço, a criatividade desapareceu do mapa que norteia as palavras e as coisas. Podia dizer que os pratos ficaram pela pia, que o desânimo superou o planejamento, o cansaço engoliu o compromisso, a vontade sumiu do mapa que norteia ideias e planos.

Podia dividir a angústia dos dias em que não consegui encontrar o equilíbrio entre o gosto e a necessidade, fazer as unhas, cuidar da casa, entregar o projeto para o chefe, visitar a feira de orgânicos, sorrir para o marido, aprender francês, entender os apps, escrever um pouco e quem sabe ter espaço, tempo e a disposição certa para testar a receita daquela torta de maçã e canela que derrete na boca.

[Delícia].

Mas a verdade é que ando profundamente em falta com vocês.

As mudanças que não acompanhei, as vitórias que não contei, os dias e respectivas noites que se passaram sem que eu soubesse onde vocês estavam, e fazendo o quê, não representam o meu afeto ou consideração. Os desencontros não condizem com as minhas saudades, nem os silêncios com os meus planos. Ao contrário: queria saber do desfecho daquela história de amor, conhecer os projetos para o próximo ano, ter de volta as madrugadas em que pareceu que seríamos inseparáveis.

Não fomos.

Certas ausências ocupam um espaço tão discreto e constante que é como se sempre tivessem estado ali. Outras, ao contrário, latejam como o corte de outro dia na mão, um minuto de distração, ossos à mostra, as veias trabalhando como numa cena de um filme B de gosto duvidoso, cinco pontos costurados rente. A falta que fazem meus amigos do peito se parece mais com as últimas, embora seja também potente a verdade guardada nas linhas do Poetinha a respeito da amizade:

– Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Torço para que a existência de vocês seja como as zamioculcas, uma espécie de planta tão bonita quanto resistente aos anos, tão afeita à praticidade quanto generosa com os descuidos ocasionais, tão suave quanto pouco exigente com regas e adubações. Torço para que os dias que se seguem a esta carta aberta sejam férteis em reencontros, apesar da raridade do tempo, da lista robusta de tarefas postas, das obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes à espera de um sinal. Torço por nós, mesmo que a distância.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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