Remédio brabo [Cyro de Mattos]

Posted on 02/06/2015

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Cyro de Mattos*

Não existia nada pior no mundo do que tomar remédio de óleo de rícino. Como outros meninos lá da rua, todos os anos tinha de beber um copo com aquela droga de remédio, que dava enjoo quando descia na garganta. O cheiro do remédio  no copo cheio provocava um frio no corpo todo, de tal forma era o medo quando pensava que tinha de beber outra vez aquele purgante pior do que o pior dos castigos. Não havia menino lá da rua que tivesse tomado aquela coisa pastosa e dissesse  ser aquilo algo que se podia enfrentar sem fazer cara feia. A melhor coisa que se fazia quando fosse tomar aquele troço era fechar os olhos e pedir que  ele descesse rápido pela garganta.

Disse  que daquela vez não tomaria o remédio. Arranjasse minha mãe outro tipo de remédio para combater as lombrigas na barriga. Ela advertiu que a vida era feita também de momentos nem sempre bons. O remédio ia matar todas as lombrigas da barriga. Se tomasse o purgante de óleo de rícino, ao invés  daquela palidez no rosto, eu ia ficar corado. Meu apetite voltaria. Bem alimentado iria crescer como um menino sadio. Afastaria assim minha indiferença para fazer os deveres da escola. Para não falar no fôlego que ia ter no jogo de bola ou em qualquer brincadeira que exigisse esforço. Ia ser o mais veloz nadador no rio Cachoeira, entre todos os meninos lá da rua.

Não adiantava minha mãe argumentar para encorajar-me a beber o purgante terrível, que deixava qualquer menino assustado só em ouvir falar nele. Preferia ficar pálido, magro com pele e osso. Sem o fôlego e vontade de correr no jogo de bola quando a partida fosse disputada, o placar desfavorável para a minha equipe, já em boa parte do segundo tempo. Meu pai foi chamado para interferir e convencer-me de que o remédio era para fazer bem à minha saúde. Ele não era homem de muita conversa nessas horas. Com o cinturão grosso preso na mão, advertia que me dava cinco minutos para beber o purgante  de óleo de rícino para matar os vermes na barriga, se não quisesse provar de outro remédio ali mesmo.

Costumava beber o remédio de madrugada, em jejum, O efeito já era visto durante o dia.  Expelidas da barriga, as lombrigas iam descendo mortas pelo vaso sanitário. Não sabia como era que aquelas iscas grandes nasciam e se criavam dentro de minha barriga. Minha mãe não deixava de ter suas razões quando insistia para que eu bebesse o purgante com óleo de rícino, se não quisesse que acontecesse comigo o que se passou com o filho do dono da venda.

Da última vez que bebi aquela nojeira, com a cara feia de sempre, minha mãe presenteou-me com um ioiô. Enquanto durava o resguardo, ficava agora o tempo todo em pé, na beira da cama, jogando o ioiô  para lá, para cá. Exercitava-me fazendo malabarismos com o ioiô no quarto. Treinava de manhã, à tarde e antes de dormir. Preparava-me assim para enfrentar Ney Gaguinho, o filho do vizinho, que morava no sobrado ao lado, Naquela brincadeira de jogar o ioiô, ele fazia malabarismos inacreditáveis.

Depois que eu recebi alta, comecei aos poucos a me alimentar com as comidas que mais gostava: ensopado com carne de carneiro, galinha ao molho pardo, carne-de-sol fritada, doce de batata-doce na sobremesa. Aí um dia chamei o Ney Gaguinho para jogar ioiô comigo, para ver quem era melhor para fazer malabarismos com o brinquedo. Dessa vez foi ele quem ficou espantado com os malabarismos que eu fazia. Deixava que o ioiô fosse para qualquer direção, puxando-o em seguida pelo cordão com habilidade e ligeireza. A facilidade que demonstrava em fazer os mais incríveis malabarismos com o ioiô arrancava agora aplausos demorados dos amigos.

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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