Trocas [Domingos Pellegrini]

Posted on 01/06/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Lembra aquele terno que Dalva me fez comprar para ser padrinho de casamento? Pois é, troquei. Você há de pensar: trocou porque, se usou só uma vez? Pois é, nem usei.

É um causo, como diziam os velhos contadores de histórias. No dia do casamento, noitinha, saímos de casa levando as novas roupas para vestir na casa da mãe de Dalva, depois que ela fosse maquiada lá. Então abri o guarda-roupa, peguei o terno, camisa, cinto, sapatos, tudo, até do prendedor de gravata lembrei, e fomos.

Dalva se maquiou, nos vestimos e rumamos para o casamento. Tudo muito bonito na capela, a cerimônia, a decoração, a música, depois o jantar no salão, e enfim o baile, quando dançamos e, ao contrário do que eu esperava, o paletó “tipo James Bond”, apertadinho, não apertou não, estava até meio folgado.

– Claro – Dalva revelou o que tinha percebido desde que me vesti – Você pegou o velho terno azul-marinho, não o novo terno azul-marinho.

A esta altura, várias pessoas, ao me cumprimentar, tinham falado do terno, pois leram a crônica anterior, e eu confirmava, sim, estava com o novo terno. Me senti um fraudador.

Dançando, mais alguém cumprimentou, elogiando o novo terno, e paramos de dançar para eu explicar que não, era o velho terno, então contando a história da maquiagem etc. Voltamos a dançar, outralguém passou ao lado dizendo “de terno novo, hem”, e eu ia corrigir quando Dalva disse deixe pra lá, ou vamos passar a noite contando essa história.

Lembrei a história das gêmeas que Tio Nino contava. As irmãs gêmeas estavam noivas de dois irmãos bem parecidos. No dia do casamento, beberam muito e embarcaram bem bebinhos na viagem de lua de mel, logo após a festa, quando pegaram cabines de trem-leito… E, você já adivinhou, né, trocaram-se os casais, tão parecidas eram as noivas gêmeas. E nem eles nem elas perceberam.

Mas, à luz do dia e sob a sobriedade, encontraram-se no vagão restaurante para o café da manhã, e, depois de discutir o assunto, levando em conta já a noite passada, resolveram que só havia duas soluções: ou destrocar as noivas, fingindo que nada acontecera, ou continuar com as noivas trocadas para o resto da vida, já que nem a mãe delas conseguia distinguir uma da outra.

Tio Nino então parava de contar a história e as pessoas perguntavam e daí, que é que resolveram? Ele se coçava, dava uma suspirada e dizia ué, já não falei?

– Nem a mãe conseguia distinguir uma da outra… E eu só sei disso porque um dos noivos, já velho, último sobrevivente dos quatro, me contou a história antes de morrer. Mas não contou que solução deram ao caso…

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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