Vento Leste [Rubem Penz]

Posted on 29/05/2015

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Rubem Penz*

Dia 23 chegou encartado em meu jornal o suplemento “Noivas”. Achei meio tardio – maio já quase se despede – mas tudo bem. São ricas 40 páginas entre matérias e publicidade. Destas, 1,5 para o noivo. Detalhe: 100% do conteúdo dirigido aos rapazes é publicitário, sendo uma página de anúncio tradicional (foto e endereço) e meia de falso artigo para a mesma loja. O restante vai em ampla vantagem para a noiva (vestido da noiva, buquê da noiva, dia da noiva, maquiagem da noiva, joias da noiva, cabelo da noiva, etc.). Completam o caderno os arranjos e decoração da igreja e salão, dicas para a festa, jantar, fotos, filmagem e destinos para lua de mel – tudo com clara interlocução focada no público feminino.

Empresas não dão ponto sem nó: tal (des)proporção jamais deve ser vista como gratuita. O casamento é uma festa feita com e para as mulheres. O noivo tem esta exata importância no cômpito geral: menos de 0,5%. Se não fosse a posição privilegiada no cenário (estará ao lado da noiva nas fotos e filmagens), além de duas ou três falas no roteiro, facilmente cairia de coadjuvante para figuração. Daí se justifica a minha teoria sobre a razão de a noiva sempre vestir branco (e o padre batina e o noivo mini fraque ou terno com cravo na lapela): passados alguns anos, os homens precisarão lembrar minimamente como foi a cerimônia.

Também é primordial que, guardadas algumas particularidades, todos os casamentos se pareçam, tanto na vida real como nos filmes e novelas. Isso servirá de reforço para que os maridos fixem na memória os momentos “inesquecíveis” da noite mais importante de duas vidas. Coisas como arranjos e fitas nos bancos da igreja, ele entrando primeiro, a noiva depois com aia e pajem, o padre dando seu texto, as alianças, o beijo, o arroz, a recepção e o cuidadoso e intrincado despir da noiva. Pois, em algum momento eles serão cobrados em sabatina oral:

– Benhê, lembra que foi numa noite assim que nos casamos?

– Assim como, Chuchu? Escura?

– Ah, vai dizer que não lembra que fazia 23 graus, o céu estava parcialmente nublado e o vento soprava de leste, de fraco a moderado?

– Leste? Foi mesmo? Lembrar, mesmo, eu lembro que a gola apertava meu pescoço…

– E a tia Sarita, que coisa. Lembra o sapato dela? Azul Royal, lindíssimo. Pena que escapava do pé de vez em quando. Acho que o regime diminuiu até dois números no calçado dela.

– Tia Sarita… tia Sarita…

– Prima do meu pai, Moreco. Irmã do Sebastião e da Juraci, que era assim-assim com o padre.

– O padre, claro: este estava de batina.

– Hummm. Vem cá, você lembra do que mais?

– Você estava de branco…

– E?

– E… de buquê!

– E minha mãe?

– Lá.

– Lá onde?

– No casamento. Sua mãe estava lá no casamento ao lado do seu pai.

– Eu tô achando que você não lembra de nada, Luís Fernando!

– Capaz! Lembro como se fosse hoje: aquela música, você de branco – linda! –, aquele padre tão, assim, devoto; nós dois saindo daquela Igreja, o arroz, a festa no salão aquele, aquela suíte do hotel com travesseiros e lençóis e toalhas e… Nossa! Passa tudo aqui na minha frente como se fosse um filme!

– Mais alguma coisa, Luís Fernando?

– Ah!, os suaves 20 graus…

– Vinte e três, Luís Fernando. Vinte e três!

– É que agora já estou na madrugada, Chuchu. E sempre cai um pouco a temperatura quando venta leste, ou você esqueceu?

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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