Perfume [Marco Antonio Martire]

Posted on 27/05/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira) 

Marco Antonio Martire* 

– Você vai usar perfume?

– Sim, por quê?

– Mas você nunca usa perfume, o perfume fica aí, evaporando.

– Hoje eu vou usar.

(pausa desconfortável)

– Você está me traindo.

– Eu não.

– Então por que o perfume?

– Faz tempo que eu não boto perfume.

– Você não precisa botar perfume.

– Por que não?

– Porque ninguém repara em você.

– Ninguém?

– Meu amor, depois de uma certa idade, ninguém repara mais.

– Nem você repara?

– Eu não disse isso.

– Você disse para eu não usar.

– Eu não disse pra não usar.

– Você não faz questão que eu use.

– Não, não faço.

– Por quê?

– Fica estranho, depois de um tempão sem usar, botar perfume para ir ao cinema?

– Nunca é tarde para mudar.

– Não precisa mudar, eu gosto de você assim.

– Você não gosta de perfume?

– Eu gosto de perfume em mim, você não precisa.

– Por que eu não preciso?

– Meu amor, assume: você é um ogro. Quer que te reparem pra quê?

– Eu sou um ogro?

– É, meu ogrozinho lindo.

– Você nunca disse isso pra mim. Ogro?

– Pra tudo tem uma primeira vez.

– Mas nós já estamos juntos há anos. Você diz isso agora?

– Hora de você se tocar que não é nenhum galã de novela.

– Mas eu não quero ser galã, quero usar este perfume.

– Esse perfume feminino?

– É de mulher este perfume? Você me deu perfume de mulher?

– Eu nunca pensei que um dia você fosse querer usar.

– Deu por quê então?

– Era seu aniversário e eu estava sem ideias. Você é chato pra dar presente. Além do mais, eu podia querer usar também às vezes.

– E você nunca usou. Ele está cheio.

– É porque ele é meio enjoativo.

– Então não é pra botar o perfume?

– Meu amor, esquece o perfume.

– Tá bom, vamos embora que a gente vai perder a sessão.

– Toma uma balinha pra disfarçar o bafo.

– Bafo? Eu tenho bafo?

– Ué, um pouquinho, nunca te falei?

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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