Como nas marés [Madô Martins]

Posted on 22/05/2015

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Madô Martins*

Morar numa praia é tudo de bom. Nem sempre, diriam os moradores aos turistas, especialmente num dia de semana véspera de feriadão. Os que chegam anteciparam o final de expediente, deixaram para trás os escritórios e sentem urgência de se livrar das roupas para relaxar ao sol. Mas os que moram têm uma rotina a cumprir, horários, obrigações – a vida real da cidade continua, pelo menos até as 18 horas. Talvez fosse possível conciliar as duas realidades, se houvesse espaço para tanta gente e tanto carro que, de repente, dão às ruas relativamente pacatas o aspecto do caos. Descem a serra os congestionamentos crônicos da capital, fazendo parar tudo ao som de um buzinaço. A avenida que leva às balsas é tomada por uma fila tríplice de veículos que ocupa toda a largura da pista e quilômetros de extensão.

Banidos de seu território, os ônibus urbanos buscam novas rotas e acabam também estancando o tráfego nas vias secundárias, despreparadas para tal movimento. Despreparados igualmente estão os passageiros que se amontoam nos pontos de parada. Após longa espera, ficam sabendo por alguém que os coletivos tomaram outro rumo e tratam de descobrir por onde estariam circulando e parando de forma improvisada. Desvendado o itinerário, competem com dezenas de outros usuários para embarcar. Viajam em carros superlotados, equilibram-se nos degraus, trocam empurrões e ofensas, perdem o ponto onde iriam descer por não conseguir vencer a barreira humana que os separa da porta.

Alguns aconselham o motorista a não deixar mais ninguém entrar, mas o profissional teme ser acusado de omissão, então, abre a porta em todos os pontos, perpetuando o empurra-empurra. Lá onde se ouvem as buzinas, os veículos andam mais devagar que os veleiros do outro lado da mureta ou mesmo, mais lentos do que os praticantes de stand-up paddle. Numa rara ocasião, nota-se uma certa altivez na atitude dos ciclistas com relação aos motoristas: na ciclovia, o trânsito flui normalmente, com direito à brisa que chega do mar.

O sol vai se pondo e dourando as centenas de carrocerias enfileiradas, arremedo de tartarugas. A elas, em alguns instantes, irão se juntar mais veículos, agora dos moradores em fim de jornada. Ninguém pode prever a que horas todos chegarão a seus destinos, embora a direção seja comum: o feriadão. Que lotará a areia de guarda-sois, a beira d’água de jogadores, o mar de atletas amadores, que será ameaça para o abastecimento de bebidas e alimentos, para o funcionamento correto da rede de esgoto, para a eficiência na prestação de serviços, para garantia da segurança…

O caos costuma durar cerca de três dias. Ao anoitecer do terceiro, reverte-se o fluxo e a confusão se muda para a saída da cidade, onde a mesma desproporção entre a largura da avenida e o volume de veículos se repete. Nas 48 horas seguintes, os jornais locais divulgam as toneladas de lixo recolhidas na orla, os acidentes ocorridos na estrada, as ocorrências policiais, o atendimento nos hospitais, os preços abusivos cobrados pelo comércio durante o excepcional período, enquanto os moradores retomam a posse do território e o ritmo costumeiro. Aos poucos, esquecem o burburinho e o desconforto vividos, afinal, na avenida agora menos agitada é possível outra vez esperar pela condução nas paradas habituais, os motoristas percorrem seus trajetos no tempo previsto, só os navios buzinam de vez em quando, nada compromete a visão do mar e quem o frequenta o conhece e respeita. Parodiando Jobim, morar numa praia nem sempre é bom, mas é bom… Aprende-se a conviver com altos e baixos, como nas marés.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras. 

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