Mercado [Daniel Cariello]

Posted on 21/05/2015

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Daniel Cariello*

Parado em uma banca de jornais em frente a uma feira de rua, um sujeito lê as manchetes do dia, que disputam sua atenção com os gritos dos vendedores.

“Morador atira em suposto ladrão
Habitante de Ipanema dispara duas vezes contra um mendigo que atravessava no sinal, supostamente em sua direção. Vítima não tinha domicílio e estava desarmada. Vida de moradores de rua está…”

– A preço de banana! Tudo aqui, na minha barraca, a preço de banana, inclusive a própria. Cinco reais uma dúzia com treze. Deu a louca na matemática! O patrão pirou! Ai, eu tô maluco! Aproveitem, aproveitem.
– Vai banana aí, senhora?
– Não, obrigada, eu queria…

O homem volta às notícias.

“Roubalheira de todos os lados
Participantes de manifestação contra a corrupção estacionam carros de maneira irregular e oferecem propina a policiais de trânsito para não serem multados. Especialista afirma: ‘No Brasil, prática de suborno é…’”

– Batata! Todo mundo gosta! Olha a batata! Tem inglesa, doce, baroa.
– Me dá um quilo da baroa.
– Um quilo bem pesado, cliente! Mais alguma coisa?
– Tem nabo?
– Tenho. Olha esse aqui, grandão, uma beleza!
– Dá dois.

Tentando se concentrar na leitura, passa ao próximo artigo.

“Caos nas ruas
Grandes cidades sofrem com engarrafamentos cada vez maiores. Apesar dos cortes em investimentos em mobilidade urbana, governos prometem deixar à população um grande…”

– Pepino! Inteiro ou em rodelas. Fica a gosto do cliente. Quem quer? Hoje tá em promoção. Paga dois, leva três. Uma delícia.
– Embrulha uns pra mim aí, Valdemar, com aquele descontinho de sempre.
– Só se for agora, patrão!

Antes de retornar o olhar aos jornais, o sujeito é abordado por uma mulher, que lhe dá um beijo na boca.

– Oi, amor, desculpa o atraso.
– Tudo bem, tava dando uma olhada nas notícias.
– Pra quê? O jornal de ontem é igual ao de amanhã, nada muda.
– Pois é…
– Olha, tô morta de fome. Vamos comer uma salada?
– Salada? Acho que o dia tá mais pra pizza.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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