Menti [Elyandria Silva]

Posted on 21/05/2015

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Elyandria Silva*

A mentira tem várias pernas, curtas e longas, caminha por si, se expande por onde menos se espera. A mãe não admitia mentira, o lema em casa era sempre dizer a verdade para os pais senão apanhava. Tinha medo e não pensava em fazer o contrário. Um dia, convencida e influenciada pelos amigos fiz parte de uma gangue que resolveu invadir e saquear uma bacia de bolinho de chuva da sala dos professores, no colégio. O crime logo foi descoberto e quando uma das freiras diretoras adentrou a sala, levada por denúncias anônimas, eu ainda mastigava um dos vários bolinhos que estavam na jaqueta. A pena foi cada um levar lanche para os professores. Ou mentia ou sofrerias as duras consequências do ato em casa. Menti para poder levar o grande lanche.

Menti que estava de saída, que estavam me esperando para uma reunião importante. Elas ficaram me olhando, pareciam não acreditar, insistiram até a desistência e promessa de atendimento num outro dia, quem sabe. Se as atendesse iria me atrasar na entrega dos trabalhos que cobriam a mesa do escritório. Se falasse a verdade seria vencida na insistência de que era bem “rapidinho”, só um minutinho, e então elas estariam mentindo.

Menti que eu mesma estava fora do Brasil por um mês e que seria difícil falar comigo mesma quando a atendente da operadora de telefone insistiu que queria falar com a Sra. Eliândria (isso, escrito assim, com acento circunflexo, por conta dela). Se não mentisse teria que explicar exaustivamente porque não queria fazer um plano que em nada me beneficiaria, traria transtornos e me tomaria alguns reais por mês. Aconteceu algumas horas depois de ter mentido para as duas moças, testemunhas de Jeová, que estavam no portão, prontas para adentrar.

Menti para conseguir um encaixe urgente na manicure, compromisso de última hora. Por favor! Da última vez falei a verdade e não consegui horário, nem sequer fui ouvida. Não poderia ir à festa com as cutículas arrebitadas e cobrindo parte da unha.

Nesse mesmo dia também menti, numa conversa com um grupo animado, que sim, também, claro, estava ansiosa pelo início da Copa e, claro, igual a eles, ficaria arrasada se o Brasil não ganhasse nos primeiros jogos. Se não fosse para a final poderia até morrer de desgosto. Falar a verdade, que pouco me importa tudo isso em relação à Copa causaria grande revolta no grupo gerando discursos de brasileirismos.

Menti que adorei um presente que ganhei, quando indagada, porque se falasse a verdade causaria um grande mal estar no relacionamento de amizade. Como ser sincera nesse caso sem ofender?

Foram cinco mentiras num dia. São mentiras inocentes. Não prejudicou ninguém, mas se falasse a verdade prejudicaria apenas eu mesma. Ser Pinóquia todos os dias é cansativo, nem sempre agradável, mas acostuma, em algum momento é possível se acostumar. Começa na infância por questão de sobrevivência, involuntariamente, até que certo dia parece impossível viver sem mentir para evitar conflitos e viver harmoniosamente com todos, ou quase todos. Diminui-se ou aumenta-se a verdade dependendo das circunstâncias por uma questão de bom senso, de manter as boas relações, de se evitar encrencas.

Todos nós mentimos. Ninguém escapa, ninguém fala a verdade o tempo todo, omitem, disfarçam, inventam. Pegar a verdade e modelar para o bem de alguém é tarefa que se aprende com a vida, com o passar dos anos.

Na literatura o personagem Macunaíma, de Mário de Andrade, ficou famoso por mentir descaradamente o tempo inteiro. Covarde e sem caráter dizia que falar a verdade lhe dava preguiça e que mentia para se safar de qualquer problema. Alphonse Daudet (1840 – 1897), escritor francês, criou o personagem Tartarin de Tarascon que ficou conhecido do público pelas suas aventuras mentirosas. Era burguês, baixinho, obeso que saía contando peripécias de um valente herói em situações nunca vividas, todas inventadas. Na televisão as mentiras se propagam com anúncios de produtos que, após comprá-los, descobrimos que não faz aquilo que anunciam. Vários políticos mentem descaradamente para serem eleitos. Mentimos por educação, por piedade, por medo, por prazer, por divertimento, por sobrevivência, mentimos e mentimos, sempre.
Escrevo com verdade recheada de mentira, com mentira recheada de verdade. Tudo pode ser inventado, assim como tudo pode ser real. Na ficção isso pode porque o escritor é um mentiroso do bem que inventa para transformar as palavras em histórias que se tornem reais à medida que cada vez mais pessoas as leem. E até essa crônica pode ser toda mentirosa.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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