Maria Pendanga [Cyro de Mattos]

Posted on 19/05/2015

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Cyro de Mattos*

Nunca conheceu os pais. Era lenhador o pai Salatiel, respeitado pelo povo da Vila do Pati como o melhor para derrubar árvore grande com o machado nas matas do Japará. Certa vez tinha ido derrubar um jequitibá seco. No segundo golpe que desferiu com o machado no jequitibá seco, um galho grosso despencou lá do alto e veio bater na cabeça dele. Ali mesmo tombou estrebuchando, a cabeça com os miolos de fora, os olhos graúdos não enxergando mais o mundo.

Quando o pai morreu, ela estava na barriga da mãe, fazia pouco mais de sete meses. A mãe Firmina ficou tão atordoada quando soube da morte do lenhador Salatiel que desmaiou ali mesmo na porta do casebre. Teve as dores do parto semana depois do enterro de seu homem, a criança nasceu fora do peso de uma gestação normal.

Tinha pouco mais de seis meses de nascida quando a mãe foi atacada da febre de impaludismo. A doença fez secar o leite, a mãe ficou sem poder amamentar a criança. Acabou morrendo, depois de tremer algumas semanas com a febre do impaludismo, na cama de vara. Antes de morrer, ela pediu a vô Isidro que tomasse conta da criança. Não deixasse que a filha padecesse neste mundo bruto das terras do Japará onde o filho chora quando tem fome e a mãe nada pode fazer para acabar com o choro.

Não precisava fazer aquele pedido, Vô Isidro era quem abrigava em seu casebre as crianças que ficavam sem pai e mãe na Vila do Pati. Alguns dos meninos criados pelo velho curandeiro foram tentar ganhar a vida na cidade distante quando cresceram e a sombra do bigode começava a aparecer no lábio superior. Dois deles levavam a vida em Belmontina como carregador de bagagem dos passageiros que desembarcavam do trem na estação ferroviária. O filho do arrieiro Lalau teve mais sorte. Aprendeu o ofício de sapateiro e abriu sua tenda num beco próximo da feira. Mas a maioria daqueles meninos criados pelo vô Iisidro sabe Deus como ficava ali mesmo trabalhando nos pertences de Vulcano Brás quando já estavam com as feições de homem.

Devia ter uns dez anos de idade Maria Pendanga quando Abelardo Pança-Farta entregou a filha dele para que vô Isidro cuidasse dela. Ela se afeiçoou tanto à filha de Abelardo Pança-Farta que parecia uma irmã mais velha, cuidando da mais nova com todo o zelo. Pegou um periquito na visgueira que armou no pé de jaca e disse que era pra Nininha brincar com ele pelo casebre quando estivesse manso, como se fosse um brinquedo vivo.

Maria Pendanga cresceu com jeito de homem, chamando a atenção dos que moravam na vila do Pati. O buço sombreava o lábio superior, os braços fortes, os quadris firmes. Tinha uma inflexão impositiva na voz um pouco grossa para uma moça de sua idade. Encarava os homens da vila sempre de rosto fechado. Aparava os cabelos, deixando-os no corte rente. De mulher o corpo mostrava-se nos seios e no sexo como Deus tinha dado a cada fêmea no mundo.

Manejava o machado como um homem. Cortava o mato com o facão melhor que um homem. Melhor do que ela para pegar o boi no laço só mesmo o vaqueiro Genaro. Tiradeira de leite das vacas para fazer inveja a qualquer homem. Amansava burro brabo causando espanto a quem visse. Aprendeu a atirar com espingarda, em pouco tempo não errava um tiro ao abater a caça. Quando soube da maldade que Vulcano Brás tinha feito com Nininha, tirando os tampos da virgindade dela na casa-sede da fazenda Boa Vista, Maria Pendanga perdeu a fala, o sono e a fome. Mordia os lábios com raiva, endurecia os punhos como se fosse esmurrar alguém que ela jurava espancar um dia. E mais jurava nos pensamentos que um dia ia tirar a desforra em Vulcano Brás pelo mal-feito que tinha cometido em Nininha.

Foi a única mulher da vila que o vaqueiro Genaro consentiu que participasse do levante. Quando os homens de Vaqueiro Genaro lutaram no corpo a corpo com os jagunços de Vulcano Brás, ela foi a primeira a sair do esconderijo por trás de uma pedra grande. Correu em disparada, mais veloz que o vento, empunhando o facão amolado, que alumiava com os raios de sol resvalando na lâmina. Saltou no meio dos jagunços como se fosse uma onça das mais enfezadas. Feriu e matou vários jagunços, não se cansava em desferir golpes sucessivos com o facão. Até que rodopiou e caiu, sem largar o facão, com o tiro que lhe deram no pescoço. A bala atravessou a garganta.

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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