Da gravata ao sapato [Domingo Pellegrini]

Posted on 18/05/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

Casal amigo vai casar, vamos ser padrinhos e então Dalva disse que tenho de comprar terno novo.

– Mas, Dalva, eu quase não uso os que tenho!

– Por isso mesmo! Em vez de usar de novo uma daquelas velharias, doe os ternos velhos, renove-se com o terno novo! E você vai ser padrinho, ir de roupa velha é como dar um presente sem estar embrulhado para presente!

Me convenceu, até porque ela já tinha escolhido o terno para mim, “passando casualmente por uma loja”. Só falta eu ir lá experimentar para os devidos ajustes.

– E aí você escolhe a gravata, mas sem enfeites nem desenhos nem estampas, uma gravata clássica, tá?

– Mas, Dalva, eu não sou clássico, eu sou no máximo jurássico e, além disso, só quero ser simples!

– Exatamente, tudo que é clássico é simples. Até já deixei lá selecionadas umas doze, para você escolher a.

– A?

– A gravata que vai combinar com o terno e os sapatos novos.

Aí falei não, não vou sofrer com sapatos novos, meus velhos sapatos ainda parecem novos e não apertam. Mas ela disse que, por isso mesmo, devo ir logo à loja, para ir usando e laceando os sapatos novos.

– E não esqueça de abotoar a camisa no colarinho, para ver se não aperta.

– Camisa? Mas aí no guarda-roupa tenho uma dúzia de camisas que não uso!

– E todas apertam no pescoço, porque você sempre comprou sem experimentar direito. Agora faça essa gentileza a você mesmo, use gravata sem se enforcar com a camisa. E doe essas camisas velhas para o asilo, os velhinhos vão se achar o máximo de camisa social, e o guarda-roupa vazio vai ser como um anúncio de renovação de vida!

Concordei, mais para não desinflar o entusiasmo dela, que me deu um beijo, abraçando pela cintura e, talvez por isso, lembrou:

– E não esquece que o cinto novo tem de combinar com o sapato!

– Cinto novo?!

– Claro! – me olhou com terna piedade – Sapatos novos, cinto novo! Senão é como você comprar um carro novo e colocar pneus velhos!

Receoso dela lembrar das meias, tentei encerrar a conversa, ou melhor, a negociação, perguntando se ela tinha idéia do custo disso tudo, da gravata aos sapatos, e ela abriu os braços e um baita sorriso:

– Não é custo, meu amor, é mostra de apreço pelos nossos amigos, e investimento de confiança na beleza e no futuro! Eu posso até ainda te enterrar com esse terno!

Aí me convenceu. Só não posso deixar de fazer ginástica, para não engordar. Já pensou se lá no futuro, quando finalmente for justificar o investimento, eu não couber no terno? Então vamos às lojas, antes que ela lembre das meias e das cuecas.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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