Crônica para colorir [Rubem Penz]

Posted on 15/05/2015

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Rubem Penz*

No mundo da criação, há quem seja genial. Todavia, como inventar é algo fascinante em si, pessoas assim têm muita dificuldade em valorar o feito – bom mesmo é o que está por vir, a próxima bolação. São, em regra, agentes culturais fadados a passar toda a existência empilhando fracassos pessoais em clara contradição com suas qualidades. O reconhecimento pode vir tardio, demorar séculos. Às vezes, para os que enlouquecerem, jamais virá.

Outro grupo habita a zona cinza: são criadores competentes em alguma medida (normalmente abaixo da genialidade), porém capazes de administrar sua vida com razoável aptidão, cada qual a seu modo. Há quem descole um mecenas, arrume uma boquinha no governo ou ganhe patrocínio. Há também aqueles que transformam o talento em emprego associado (redatores, designers, chefs, professores…). Enfim, se viram.

Porém, chega a dar uma inveja daqueles espertos cujo grande talento é requentar uma novidade velha e ganhar rios de dinheiro. Agregar valor, identificar tendências, descobrir nichos de mercado. Às vezes, simplesmente perseverar. Para o mínimo de criação (minimalismo tem seu valor) o máximo de ganhos. Acontece até de nem serem os verdadeiros inventores do que vendem: identificam um criador do primeiro grupo, aproveitam seu desapego e dão o toque de Midas.

Recente caso de ótima esperteza na comparação com o talento é a febre dos livros para colorir. Verdadeiramente genial não é a ideia: é o trato comercial da ideia. É o dar-se conta prodigioso de que, hoje, as pessoas desejam “pintar dentro da borda” – fora dela dá muito trabalho. Claro que, logo a seguir, vem o mercado e inunda a piscina com réplicas baratas ou similares grotescos.

Por falar nisso, como a vida inteira fui um cara meio a perigo, devo ser um mediano criador ali do segundo grupo. E quero migrar para o terceiro! Assim, apresento esta incrível crônica para colorir. Explico: imprima o texto numa folha branca com a fonte Arial corpo 12 e entrelinhas de 1,15. A seguir, pinte com lápis de cor dentro dos o e as partes fechadas dos p, b, d, q, a, e minúsculo e r maiúsculo. Aí, afaste 1,5 metros e veja o resultado espantoso que só esta única disposição de palavras é capaz de oferecer, enriquecida com seu talento cromático. Depois, compre meus livros e constate que sempre criei textos com efeitos extraordinários ao colorir.

Aviso: se inventar de colorir as crônicas dos outros, também aparecerão figuras. Mas tais desenhos serão acidentais. Só meu copyright é sinônimo de garantia!

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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