Oração para enterrar cão [Domingos Pellegrini]

Posted on 11/05/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Apareceu, em questão de dias, um baita tumor na coxa traseira do Bravo. Foi tão grande e tão rápido que logo pensamos o pior; afinal, seu pai Pingo teve câncer na garganta…

Veterinária veio, olhou e não fez boa cara. Chamou outra, que chegou com aparelho portátil, coisa tecnológica que mostrou o tumor grande como um abacate graúdo. Mas se era maligno ou benigno, só um encologista poderia dizer, e ela transmitiu o exame por internet para ele, que só podia examinar no dia seguinte.

Enquanto isso, peguei a pá e fui para o fundo da chácara, onde já respousam, no nosso Cemitério de Cães,  a Maga, o Pingo e a Leta. Pinheiro está crescendo sobre a cova da Leta, e alamanda cresceu sobre a do Pingo, logo vai florir. Ao lado, cavei cova para o Bravo.

Mais comprida, mais larga, porque ele é maiorzão e o primeiro a nascer muma ninhada de dez. Desde filhote, encara sério, é nobre, nunca pede, apenas espera por carinho. Não avança na comida, fica me olhando como se agradecendo. E tem audição tão fina que já late quando o carteiro ainda está levando a mão à campainha, sei disso porque vi/ouvi um dia quando chegava em casa.

Quis fazer logo a cova para quando, confirmado o dignóstico, a veterinária lhe der a injeção final. Não quero que ele sofra. Nosso grandalhão não merece se apequenar com dores.

Mas eis que o dignóstico dá tumor benigno! E, embora o tumor seja tão grande que nem dá para extirpar, pois faltaria pele para suturar, ele continua a viver normalmente, latindo para o carteiro, cochilando aqui atrás de mim enquanto escrevo, sem qualquer sinal de dor. Para ele escrevi esta oração:

Vai fundo, companheiro

vira micróbio e bactéria

vira raiz e flor

Te integra ao quintal

onde caçaste pardal

fizeste tanto cocô

 

Vira, velho cão, um gás

capaz de nos dar mais

canina serenidade

E quisera ser enterrado

a teu lado como tanto

viveste tu a meu lado

 

Adeus, ou seja, até sempre

correndo pela memória

brincando com tua bola

me olhando como quem olha

no momento de ternura

 toda a nossa história

cao

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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