Águas miúdas [Mariana Ianelli]

Posted on 09/05/2015

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Mariana Ianelli* 

Não é do tipo excruciante, dessas dores que derrubam, que torturam, que enlouquecem. Comparada com outras dores, se é que dores se comparam, se é que podem competir umas com as outras só porque em quase tudo neste mundo se compete, comparada com as dores gordas das tragédias, essa é ridícula. Realmente ridícula. No cômputo geral das lágrimas, ridícula. Coisa de águas miúdas. Uma cadela que não se levanta mais, que mal se mexe, mal respira, mas que ainda abana o rabo quando vê você. Dor de ternura. A casa vendida, demolida, apagada do mapa da cidade, sem que nada disso seja exatamente chocante, até o dia em que você passa em frente ao terreno e se dá conta de que o velho flamboyant foi decapitado. Dor de ternura. Saber pelo tapeceiro da rua, amigo do pedreiro dono do galo, que o galo não canta mais para a vizinhança porque morreu. Podia não tecer a manhã, sendo ele único no bairro, mas que tecia o ânimo de muita gente, isso o galo do pedreiro tecia. Dor de ternura. Os livros que eram presentes para a avó, um dia, todos de volta para você, com as páginas marcadas com flores secas. Esses nomes pequenos, como já disse um poeta, esses nomes do afeto quando voltam, meu unicórnio azul, minha lágrima de vidro, minha pérola, minha branquinha. Dor de ternura quando esses nomes pequenos murcham como um pé de hortelã que amarela e pende de um canteiro já em si mesmo tão humilde. Dor de ternura quando voltam no ar do pátio de casa esses nomes, bruma rápida, miragem, chamando você. E você vai, você os ouve, a esses nomes, Coyotito, você cai nesse momento enternecido, que é só isso mesmo, um momento com pouco tempo e pouco mundo para durar, Coyotito, meu poemeto escrito com dedo na areia da praia, meu anjo, meu principezinho.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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