Jogando o jogo [Madô Martins]

Posted on 08/05/2015

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Madô Martins*

Às vezes, tenho a impressão que a vida nos encara como peças de um tabuleiro de xadrez. Arma surpresas como se jogasse com os peões, atropela a galope com seus cavalos, faz-se ardilosa como ao mover os bispos, mostra-se radical lembrando as torres, vira a mesa como a rainha e, no final da partida, é fatal como o rei. Aprendemos a jogar, jogando. E talvez seja esse o lado fascinante do viver, o mistério do que virá e como. O que aprendemos, logo a partir dos primeiros anos, é que cresceremos eternamente rodeados de encontros e desencontros. E que sobreviveremos a ambos, tropeçando, caindo, levantando – sempre seguindo em frente, enquanto o jogo durar.

Briga feia à noite, despedida ríspida, insônia. Pela manhã, aconselhada pelo travesseiro, ela digita uma mensagem no celular, movendo timidamente uma peça em direção à reconciliação.

“Passa aqui mais tarde?”, pergunta sem mais. E espera até o dia seguinte pela resposta: “???” . Vê que ele ainda está zangado, mas não desanima: “Mandei ontem, mas ainda vale para hoje. Você escolhe as armas, mas não haverá duelo”. Aí, tudo se esclarece. Do limbo vem a réplica que a desconserta de vez: “Quem está falando?”

Gela. Aquele não pode ser o mesmo homem. Verifica a data, a hora e, enfim, o número de onde parte a aridez. Então conhece o mais novo desencontro da coleção. Empenhada em teclar o 9 antes do número para atender à recomendação da operadora, trocara um dos algarismos e enviara o amor para um desconhecido. Ou uma, o que seria ainda pior. À praia do verdadeiro destinatário não chegaram suas garrafas de náufraga. Retornou ao número errado, informando o equívoco. E telefonou para o amado, para contar de viva voz a atrapalhação. Riram. Fizeram as pazes. E não mais teclam o 9, enquanto as operadoras completarem as ligações sem o dito.

Não são raras, no tabuleiro, as jogadas em que de uma situação penosa surge outra que consola. Saía de um velório com aquela sensação indesejada de impotência e finitude e me deixei ficar no pátio, aguardando o táxi. Distraía a espera observando as aves expostas atrás de um engradado. Aves caladas, movendo-se lentamente sob um céu nublado, como se a acompanhar o ritmo dos corações apertados e das lágrimas furtivas.

De repente, um sol discreto iluminou a manhã. E, completando a proposta, um pavão albino resolveu dar seu show de plumas, virando-se em minha direção com a cauda em leque, belíssimo, alvo e delicado qual uma estátua de neve. Não satisfeito, ainda concedeu bis, com a mesma imponência. Quando o táxi chegou, levei apenas a imagem branca: a tristeza ficara para trás.

Melhor ainda é quando reencontramos uma cara lembrança, fazendo o sangue pulsar forte nas veias. O dia não estava nada animador. Andara muito e os resultados obtidos tinham sido pouco compensadores. O último dos compromissos fora cumprido num local pouco conhecido, onde me sentia estranha e perdida, sem qualquer referência que me servisse de bússola. O trânsito parecia agressivo, o céu carrancudo ameaçava chuva, o vento soprava frio. Minha maior vontade era sair logo dali, voltar a calçadas familiares, tomar o rumo de casa.

Então os ouvidos captaram um som vindo de longe que, de pronto, me causou aconchego similar ao dos realejos. Lá na esquina, surgiu um padeiro, com seu anacrônico triciclo e uma buzina rouca cujo som ecoava pelos muros ao longo da rua. Se fosse um cão, a memória começaria a abanar o rabo, a esta altura: era o mesmo homem de anos atrás e o mesmo carrinho abarrotado de delícias que passavam todas as tardes diante do prédio onde eu trabalhava, na hora engordante do lanche.

Perguntei se ainda vendia o fabuloso pão de maçã, e ele respondeu que sim. Contei que sua visita diária, cerca de uma década antes, era uma das melhores coisas das minhas horas de expediente. Ouvia a buzina e descia vários andares pelas escadas, sem paciência para dar tempo ao elevador. “Ainda passo por lá”, disse o padeiro, sem se lembrar de mim, óbvio. Agora, com os pães embrulhados, o lugar já não parecia tão hostil…

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* Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras. 

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