Pequeno dicionário de carioquês [Daniel Cariello]

Posted on 07/05/2015

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Daniel Cariello*

Algumas palavras e expressões não têm no Rio de Janeiro o mesmo significado que em outras partes do universo. Compartilho aqui uma pequena lista do que já consegui aprender nesses três primeiros meses de vida carioca, para orientar neófitos e desavisados que estiverem de passagem pela Cidade Maravilhosa.

1. Parada – A espinha dorsal da comunicação local. Serve para tudo e pode ser empregada a qualquer momento.

. Por exemplo, em uma loja: “Aê, queria ver aquela parada ali. Não, aquela outra, azul.”

. Em uma conversa sobre a vida alheia: “Aê, aquela parada que a Marcinha fez com o Jorginho, isso não se faz”

. Ou em um papo sobre a noite anterior: “Aê, tomei umas paradas sinistras na festa, ainda tô na mão do palhaço”

2. Estar na mão do palhaço – Estar muito doido depois de se entupir de umas paradas aê.

3. Doido – Brother, como na expressão “Aê, doido!”

4. Brother – Uma pessoa qualquer, que, no entanto, nunca é o seu irmão: “Aê, brother, que horas são?”. Pode ser agrupado com “parada”: “Um brother ficou de agilizar umas paradas pra mim.”

5. Irmão – Um brother: “Aê, irmão, vai querer uma cadeirinha de praia?”.

6. Mermão – Um irmão que subiu de categoria e já é muito mais que um brother: “Mermão, que saudade!”. Também pode ser usado como interjeição a qualquer momento, em qualquer ocasião: “Mermão, o Flamengo tava sinistro ontem!”. Neste caso, pode ser substituído por “porra”, quando se quer variar o vocabulário: : “Porra, demais essa parada”, “Porra, tu viu aquela gata?”

7. Sangue bom – Mais do que brother, menos que mermão.

8. Bagulho – Umas paradas que você toma e te deixam na mão do palhaço. Também é um bom substituto para “parada”, como na construção: “Vamos nessa, o bagulho aqui tá sinistro”.

9. Sinistro

. Algo muito ruim: “Pô, rolaram umas paradas sinistras com o Jão”.
. Algo muito bom: “Maluco, tu vai pirar, a parada é sinistra!”

PS: Para ser compreendido, o “s” deve ser pronunciado como “x”: Sinixtro.

10. Bonde – Geral

11. Geral – A porra toda

12. A porra toda – Geral, mas pode ter um lado violento: “Marcinho tomou umas paradas e saiu quebrando a porra toda”

13. Porra – Pode ser utilizado para substituir o “aê”, no início das frases: “Porra, demais essa parada”, “Porra, tu viu aquela gata?”

14. Tu – Pronome pessoal do caso reto, usado em substituição a “você”. Atenção: para se fazer entender, é proibido conjugá-lo segundo a gramática. Algumas utilizações corretas de “tu”: “Aê, maluco, tu viu aquela parada?”, “Tu passa lá em casa mais tarde?”

15. Passar lá em casa – Quando algum carioca falar “passa lá em casa um dia desses” ou alguma de suas variações, o que ele realmente quer dizer é: “Aê, doido, a parada é a seguinte: tu é sangue bom, talvez a gente se esbarre por aí, mas não pinta na minha residência, valeu?”

:: Importante – Não confunda ::

. Irado / Maneiro – Irado é alguma coisa muito maneira. E o maneiro é algo irado, mas um pouco menos maneiro.

. Maluco / Doido – Maluco é um doido muito irado. E o doido é um maluco que pode ser maneiro, ou não.

. Mané / Vacilão – O mané é um maluco que vacila, mas em geral é inofensivo. E o vacilão é um baita de um mané que geral quer ver pelas costas.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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