Moedas em potinho de fermento [Elyandria Silva]

Posted on 07/05/2015

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Elyandria Silva*

Ele sempre sorri, e tem dias que aquele sorriso assusta mais, principalmente para quem vive assustado de medo. Faça frio, calor, chuva, qualquer tempo, qualquer dia, está sempre de chinelo de dedo, boné na cabeça, calça jeans dobrada para cima do tornozelo e camiseta listrada nas cores azul marinho e branco. Quando a temperatura cai os braços cruzados tornam-se seu casaco. Tem problema de cabeça, dizem, mas tem momentos que parece que são os outros que têm problema de cabeça. Provavelmente aquele homem baixo que caminha por ruas sem saber direito onde está é feliz em sua alienação. Nós, os outros, sabemos sempre onde estamos e não somos tão felizes em nossas cruas realidades, nem sempre.

Chego apressada ao supermercado. Passo pelos corredores como numa corrida maluca, vou apanhando as mercadorias das quais preciso sem olhar ou comparar preços, pouco importa, não há mais tempo para isso hoje em dia, no final pagaremos o mesmo preço. Os relógios eram nossos amigos, nos protegiam de passagens aceleradas, nos davam brindes de minutos, horas espaçosas, nos faziam acreditar que seríamos eternos. Depois tornaram-se inimigos, nos lembram a cada segundo de nossa patética mortalidade, debocham de nossa vã tentativa de viver muitas vidas em uma. Não os queremos por perto, não os valorizamos tanto como antes, tentamos driblá-los correndo como loucos para fazer tudo, e um pouco além do tudo também.

Quando chego na fila do caixa lá está aquele homem que já me causou medo quando ficava da esquina olhando para minha casa, de braços cruzados. Tem nas mãos um potinho de fermento. Abre a tampa do pote e despeja no balcão o conteúdo que tem dentro. Não é fermento, são moedas, muitas moedas. Todos olham atentos. A moça do caixa amontoa todas e começa a contagem. Ele observa, sério. As poucas compras já estão embaladas na sacola. A contagem leva um tempo. Todos olham em silêncio. “Dá mais um”, diz a moça. Ele sorri. Sai do caixa e volta para o interior do supermercado, some. É minha vez, tiro as compras da cestinha. Ela pega um pacote de leite de uma sacola e passa de novo no leitor. Passa todas as minhas compras. Estou pagando quando o homem volta de frente para o caixa, dessa vez com um pacote de leite na mão. “Pode ir, já passei”, diz a moça a ele. O homem do sorriso não entende. “Está tudo certo, fique tranquilo, já passei seu leite”. Ele não entende como ela poderia ter passado se ele foi buscar o pacote de leite. Pacientemente ela sorri para o homem, ambos sorriem juntos. “Pode pegar suas compras, está tudo certo, o leite é seu”. E ele foi, mesmo sem entender direito.

Ah, a beleza da paciência, a sutilidade da educação para com aqueles que não compreendem tanto quanto nós. A doce moça do caixa. E naquela hora tive vergonha de um dia ter sentido medo daquele pobre homem que vai ao supermercado com potinhos para comprar leite em pacote, sempre sorrindo de si mesmo e de um mundo que ele vive, mas sequer conhece.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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