Artesaneto [Domingos Pellegrini]

Posted on 04/05/2015

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Domingos Pellegrini*

Sou um herói: fiz estilingue para o neto.

Caetano olhou nos olhos quando perguntei o que queria de presente.

– Um estilingue, vô – o olhar faiscando.

Oposição geral da mãe e das avós cerrando fileiras: estilingue jamais! Pra que, matar passarinho? Ou pra quebrar vidraça?!

Ora, falei, não é só Caetano querendo o estilingue, é também o caçador ancestral nele, e também o moleque de quintal, a origem rural. E não falam tanto da importância dos rituais de passagem? Mas os meninos tem também arsenal de passagem: da espada de plástico ao revólver de munição inesgotável, passando pelas lanças de cabo de vassoura e pela atração por faca e canivete, menino cresce entre armas.

Sem homens armados para caçar e defender a família, lá no tempo das pedras, a gente nem teria chegado aqui!

Além disso, vida é experiência: como alguém vai superar as armas se nem as conhecer? E quem sabe o que um guri pode aprender com um estilingue?

Vencida a guerra verbal, fui caçar forquilha. Achei na jaboticabeira, já antevendo o estilingue. Cortei com serrinha e, no terraço, descasquei com canivete do vô João.

Com faca de pão, fiz as frinchas nas duas pontas da forquilha. Na farmácia peguei “tripa de mico”, a fita elástica para garrote no braço, e na bicicletaria consegui retalho de câmara de ar. Mas e couro para a lingüeta? Uma velha botina ficou sem calcanhar.

E fizemos o estilingue diante de Caetano, na beira de lagoa de pesqueiro, Dalva ajudando a fazer os amarrios, tudo conforme me lembro dos moleques fazendo, lá na meninice, mas eu mesmo nunca fiz e sequer tentei fazer um estilingue. Caetano olhava atentíssimo, e eu temerosíssimo de não conseguir.

Mas enfim estava feito nosso artesaneto! O estilingue que nunca fiz, estava ali nas mãos do neto, saído das minhas mãos e funcionando! Caetano ficou mais feliz que passarinho caído do ninho e aprendendo a voar!

Daí fomos almoçar, Caetano engolindo a comida para ir estilingar. Falamos tome cuidado, hem, para não acertar alguém. Dali a pouco volta ele, pela mão de um senhor a perguntar:

– Quem é o responsável por este menino que me acertou com pedrada?

Pedrinha, gemeu Caetano. Desculpas, explicações. E depois, no carro de volta à cidade:

– Aprendeu, Caetano?

Aprendi, seu olhar falou no retrovisor, depois a voz repetiu: – Aprendi, vô.

Falou baixinho, e eu também:

– Sabia que você ia aprender alguma coisa com o estilingue.

Ele voltou a colocar o estilingue como um colar precioso no pescoço.

estilingue

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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